Flávio Meneghetti, da Fenabrave: inadimplência só deve começar a diminuir a partir do segundo semestre
Na escalada do calote no crédito de veículos, a culpa sobra até para a
avó. A doença da matriarca da família - e o gasto salgado com o remédio
- foi a justificativa para um cliente da concessionária Amazon, em São
Paulo, deixar de pagar a prestação do carro. A dívida era distribuída no
folgado prazo de sessenta meses.
O caso da avó doente está longe de ser a exceção no financiamento de
veículos. São histórias como essa que sustentam o patamar histórico em
que se encontra a inadimplência do financiamento para veículos da pessoa
física. A taxa chegou a 5,5% em fevereiro (último dado divulgado),
maior percentual registrado desde que o Banco Central começou a medir o
dado, em 2000.
A inadimplência em alta, que desde janeiro de 2011 ganhou cerca de
três pontos percentuais, serviu de partida para mudar a forma como é
concedido financiamento para carros e motos pelos bancos de varejo.
Entre as mudanças, prazos diminuíram, valor da entrada subiu e
instituições ficaram mais seletivas - com os maiores participantes do
segmento, Itaú e BV Financeira, reduzindo significativamente o ritmo de
atividade.
A alta do calote expôs problemas na qualidade dos empréstimos, levando analistas de crédito ouvidos pelo
Valor
a questionar se a subida da inadimplência não é produto de uma bolha de
crédito que se formou no mercado, com a explosão dos empréstimos entre
2008 e 2010.
Altamente dependente do mercado interno, a indústria automobilística
já sentiu a queda de 10,9% nos volumes de produção no primeiro
trimestre. O quadro começa a levar executivos do setor a reavaliar as
projeções que inicialmente indicavam expansão de 4% a 5% nas vendas
domésticas em 2012. "O mercado continuou ruim em abril e deve seguir
assim no semestre, o que indica que não teremos crescimento este ano",
diz o presidente da JAC Motors, Sérgio Habib.
No novo cenário, os bancos estão cada vez mais seletivos. A
dificuldade na obtenção de crédito fez a venda a prazo cair de 85% do
total no final de 2011 para 78%, no primeiro trimestre deste ano,
segundo a Federação Nacional de Veículos Automotores (Fenabrave). "Em
2010, de cada dez fichas com pedidos de financiamento, os bancos
aprovavam sete. Hoje a média não passa de quatro ou cinco", diz o novo
presidente da entidade, Flávio Meneghetti. Para ele, o nível de
inadimplência só deverá diminuir a partir do segundo semestre, "quando o
orçamento das família endividadas deverá começar a recuperar o fôlego".
No maior participante da modalidade, o Itaú, o crédito para veículos
estancou, fechando 2011 com R$ 60,1 bilhões de saldo, mesmo valor
registrado um ano antes. Já a BV Financeira, que passa por reformulação
nas mãos do Banco do Brasil, praticamente abandonou o mercado, elevando
as taxas para novos empréstimos.
"Os bancos, em especial o Itaú, não estão aprovando mais crédito para
profissionais liberais, a não ser em caso de possuírem histórico muito
positivo com a instituição", diz Marcelo Jallas, da concessionária
Amazon, grupo com lojas das marcas Fiat e Volkswagen, em São Paulo. "Por
outro lado, dependendo da ficha do cliente, o crédito sai em um
minuto", completa Marcos Leite, gerente da loja Volks.
A seletividade também aparece na mudança dos prazos e tamanho da
entrada. Na tentativa de aquecer as vendas na faixa de clientes que
conseguem aprovação de crédito rapidamente, os bancos de montadoras
começaram a oferecer planos com taxas mais baixas. A estratégia se
concentra nos veículos mais afetados por lançamentos de marcas
concorrentes. Há poucos dias, o Banco Volkswagen lançou o financiamento
do Crossfox em 18 meses, com 60% de entrada e sem taxa de juros.
Na concessionária da Volkswagen Germânica, em Campinas, Evandro Garms
conta que os financiamentos de 60 meses sem entrada, que correspondiam a
40% do total feito pela casa há cerca de um ano e meio, hoje ficam
entre 5% e 10%.
"O crédito para veículos estava provavelmente caminhando para uma
bolha", diz o economista Wermeson França, da LCA Consultores. Ele cita
incentivos para aquisição de veículos, como a redução do Imposto sobre
Produtos Industrializados (IPI) em 2008, que levaram à ampliação dos
prazos de financiamento.
Mas o cenário do crédito mudou quando, em dezembro de 2010, o Banco
Central anunciou as chamadas medidas macroprudenciais, que aumentaram a
exigência de capital dos bancos para financiamentos de longo prazo. A
economista Mariana Oliveira, da Tendências Consultoria, diz que,
enquanto a justificativa oficial do BC era esfriar a demanda e controlar
a inflação, em sua opinião houve uma tentativa de encurtar os prazos
das operações de crédito "que cresciam em ritmo rápido".
Para ela, as medidas também criaram empréstimos de menor prazo e com
juros maiores, que contribuíram para o avanço da inadimplência. Mesmo
porque as medidas do BC coincidiram com aumento na competição no mercado
de automóveis, com a chegada de modelos chineses.
A suspensão parcial das medidas do BC, em dezembro de 2011, o aumento
do salário mínimo e o mercado de trabalho aquecido devem contribuir
para a redução gradual da inadimplência ao longo de 2012. Porém,
Oliveira acredita que a taxa pode encerrar o ano acima da média
histórica.
"Acreditamos que a taxa vai se estabilizar e depois cair. A
dificuldade é dizer quando, já que 2011 foi um ano atípico, o que nos
deixou sem base histórica para a previsão", diz Décio Carbonari,
presidente da Associação Nacional das Empresas Financeiras das
Montadoras (Anef).
Apesar da revisão das medidas macroprudenciais, as regras de Basileia
3, que exigirão mais capital dos bancos, podem manter os grandes bancos
de varejo longe dos financiamentos de veículos. É o que acredita Celso
Grisi, professor da Faculdade de Economia e Administração da USP. "Os
bancos de montadoras terão que suportar esse mercado", diz. Para ele, o
segmento viveu, sim, uma bolha antes de 2011.
Mas alguns bancos de varejo também começam a ensaiar papel mais ativo
no segmento, caso do Santander e do PanAmericano. Mesmo assim, o
Santander escreveu em seu relatório anual que fez "correções de rota" no
crédito de veículos com "políticas mais conservadoras e medidas de
segurança na gestão de crédito". Procurados, Itaú, Banco do Brasil,
Banco Votorantim, Bradesco, Santander e PanAmericano não comentaram a
política de crédito para veículos.
(Colaborou Marli Olmos)
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