domingo, 9 de fevereiro de 2014

Reservas internacionais custam R$ 65 bilhões por ano

Wellton Máximo
Agência Brasil
 
 
Apontadas como o principal fator que ajuda a segurar o dólar em torno de R$ 2,40, em um cenário em que moedas de países emergentes, como a Turquia e a Argentina, têm despencado nas últimas semanas, as reservas internacionais custam caro para o Brasil. Em média, o governo deixa de ganhar R$ 65 bilhões por ano com a manutenção das reservas em torno de US$ 375 bilhões.
 
De autoria do economista Reinaldo Gonçalves, professor titular de economia internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a estimativa considera dois fatores. O primeiro é o custo cambial, o que o país deixa de obter ao aplicar os recursos no exterior contra o que os estrangeiros obtêm aplicando no Brasil. O segundo é o custo fiscal, a diferença entre o custo médio da dívida pública brasileira e a remuneração internacional das reservas.
 
Na verdade, a manutenção das reservas não representa um gasto direto, mas sim o custo de oportunidade, aquilo que o governo deixou de conseguir ao usar os dólares que entraram no país nos últimos dez anos para engordar as reservas. Segundo Gonçalves, o custo cambial está estimado em R$ 16 bilhões por ano. Já o custo fiscal é ainda maior e atinge R$ 49 bilhões por ano.
 
Como os valores representam uma média de vários anos, Gonçalves adverte que atualmente o custo de manutenção das reservas está ainda maior. “Com o aumento dos juros no Brasil e a disparada do dólar desde meados no ano passado, o retorno dos investidores estrangeiros que aplicam no Brasil ficou ainda maior, o que aumenta ainda mais o custo de oportunidade”, explica o professor da UFRJ.
 
Desde o início da escalada do dólar, em maio do ano passado, o Banco Central (BC) tem optado por não mexer nas reservas internacionais e segurar o câmbio apenas por meio de operações diárias de swap cambial, que equivalem à venda de dólares no mercado futuro. De agosto a dezembro, o BC vendeu US$ 500 milhões por dia no mercado futuro. As injeções caíram para US$ 200 milhões diários em janeiro.
 
Apesar do custo elevado de o Banco Central não mexer nas reservas, especialistas consideram essa a melhor opção para segurar o dólar. “As reservas internacionais são como um colchão que protege o país de ataques externos. Como são maiores que a dívida externa [atualmente em torno de US$ 312 bilhões], elas tornam o país credor líquido externo”, diz o professor de economia internacional da Universidade Federal Fluminense (UFF), André Nassif.
 
Embora reconheça a importância de as reservas internacionais superarem as contas externas, Gonçalves considera que esse argumento leva em conta apenas uma parte da discussão. Ele ressalta que a dívida externa representa uma pequena porção do passivo externo brasileiro, atualmente em torno de US$ 1,5 trilhão. “A maior fatia do passivo externo corresponde aos investimentos de estrangeiros no mercado financeiro. É capital especulativo que pode fugir do Brasil a qualquer momento”, comenta.
 
Segundo Gonçalves, o país acumulou reservas internacionais nos últimos dez anos de forma passiva, mais influenciado pelas condições favoráveis da economia internacional antes da crise de 2008 do que por uma política ativa. “A China e o Japão acumularam reservas para ampliar o poder na economia global e se contrapor aos Estados Unidos. O Brasil, até agora, só formou reservas para administrar custos altos”, opina o professor da UFRJ.
 
Mesmo com o custo de carregamento das reservas internacionais, André Nassif não acredita que o problema esteja no tamanho, mas na composição delas. “Até 2009, as reservas cresciam por causa das exportações, mas passaram a ser sustentadas pela conta de capital, que engloba tanto os investimentos estrangeiros diretos como as aplicações em carteira [capital especulativo] com os rombos crescentes nas contas externas”, pondera. “A Argentina está sofrendo muito mais do que o Brasil justamente porque tem reservas pequenas”, completa.

Mensalões diferentes

por Paulo Moreira Leite

 Ao contrário do que ocorre na AP 470, é fácil apontar desvio de dinheiro público no mensalão PSDB-MG.
Se você é daqueles que acredita que o mensalão PSDB-MG é igual ao esquema financeiro da AP 470 pode despedir-se de mais uma ilusão.
A leitura das alegações finais de Rodrigo Janot,  procurador geral da República sobre o mensalão PSDB-MG mostra uma verdade difícil de negar. Tudo aquilo que se disse – e não se provou – sobre o esquema de Valério-Delúbio pode ser dito e provado no mensalão PSDB-MG.
A polêmica principal sobre o mensalão dos petistas diz respeito ao desvio de recursos públicos. O procurador geral Antônio Carlos Fernando, seu sucessor Roberto Gurgel e o relator Joaquim Barbosa sustentam, desde o início, que o esquema Valubio baseou-se no desvio de R$ 73,8 milhões de recursos públicos. Dizia-se, no começo, que esse dinheiro fora desviado do Banco do Brasil. Uma apuração mais acurada mostrou que o dinheiro pertencia ao Fundo de Incentivo Visanet, destinado a divulgar o cartão Visa, que é uma  empresa privada. Hoje não há a mais leve dúvida a respeito.
Embora uma única testemunha tivesse dito que – qualquer que fosse sua natureza -- os recursos destinados a DNA eram desviados para campanhas petistas, a contabilidade mostra que o desvio – se houve – está longe de ter sido demonstrado.
As contas batem, conforme várias auditorias.
E tanto é assim que nesta semana, teremos uma novidade neste item. Enquanto os réus da AP 470 já estão cumprindo penas longas, em regime fechado, seus advogados começam a distribuir uma notificação judicial aos veículos que receberam as verbas da DNA. Estamos falando da TV Globo, Editora Abril, Estadão, Folha, Editora Três.  
Convencidos de que irão colher um dado que ajudará a demonstrar a inocência dos réus, os advogados querem que as  empresas confirmem – ou desmintam  – a informação de que os recursos da DNA chegaram a seus cofres. Estes dados, a rigor, encontram-se nos documentos da AP 470. Mas ficaram ali, congelados nos arquivos, sem que fosse possível examinar seu significado e extrair todas implicações.
A consulta às empresas, que será feita agora, deveria ter ocorrido em 2005 ou 2006, na época da denúncia. Era o tempo certo para uma checagem tão importante, decisiva, até.
Mas não interessava questionar uma teoria que agradava tantas pessoas e tantos interesses, vamos combinar.
A leitura das alegações finais de Janot sobre o mensalão do PSDB descreve fatos muito mais graves. Ele fala de desvio de milhões de reais de empresas estatais do governo de Minas Gerais. Fala da Copasa, Codemig, Comig. Ao contrário do que acontecia com a Visanet, que se definia como “empresa de capital privado”, em seus estatutos e também num questionário enviado a CPMI dos Correios, aqui estamos falando de empresas públicas, controladas pelo governo do Estado, com funcionários concursados e tudo mais.
A Copasa é a Companhia de Saneamento do Estado. A Codemig dedica-se ao desenvolvimento econômico e obras de infraestrutura. A Comig é a estatal de mineração.
Não há comparação possível com a Visanet, criada pela multinacional dos cartões Visa, uma das maiores empresas do mundo. 
Com notas e depoimentos, Janot descreve cenas tão didáticas que poderiam estar num filme. O dinheiro sai das estatais, chega às agências e, em vez de ser gasto em publicidade, é despachado para os cofres da campanha estadual do PSDB em 1998. Porções mínimas das verbas destinadas a publicidade chegaram a seu destino. A maior parte ficou no meio do caminho, diz ele.
 Muitas pessoas diziam, quando Roberto Jefferson fez a denúncia, que o PT apenas repetia o que o PSDB fizera antes. O próprio Lula disse em Paris que seu partido nada fazia de diferente daquilo que ocorria “sistematicamente” na política brasileira.  
 Parecia uma forma do PT tentar proteger-se atrás dos erros do adversário, o que levou a acusação de que o partido queria justificar seus erros através dos erros dos outros. Talvez seja mais correto afirmar o contrário. A construção de uma visão distorcida  na AP 470 ajudou a encobrir erros e desvios -- mais graves -- da AP 536-MG.
Embora o próprio Janot se permita, nas alegações finais, lembrar as semelhanças – e algumas distinções – entre os dois mensalões, as diferenças são muito maiores do que se quer acreditar.  O Banco Rural é o mesmo, um personagem central – Valério – também. Até as secretarias eram as mesmas.
Mudava a natureza da mercadoria.
A existência do mensalão PSDB-MG chegou ao STF Supremo em 2003 mas ficou em segredo até a denúncia de Roberto Jefferson contra o PT. Foi então que se descobriu que Marcos Valério, o parceiro que se aproximou de Delubio – o Carequinha, nas palavras de Jefferson -- nos meses finais da campanha de 2002, havia sido formado e treinado nas campanhas tucanas desde 1998. 
 Veio daí a teoria de que o segundo mensalão era uma cópia do primeiro. As diferenças no ponto essencial – dinheiro público – permitem pensar em outra hipótese. A teoria do segundo mensalão serviu para justificar o primeiro.
 É como se, já tendo conhecimento anterior do mensalão PSDB-MG, a acusação tenha feito o possível para vestir o esquema de Delúbio-Valério com as mesmas roupagens e a mesma gravidade, fazendo uma denúncia igual para casos substancialmente diferentes.  Isso explica porque se forçou a barra para dizer que as verbas saiam do Banco do Brasil e, quando se verificou que sua origem era a Visanet, para dizer, num exercício espantoso, a que os recursos seguiam públicos embora fossem propriedade de uma empresa privada. 

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

O jornalismo econômico

por Marcelo Miterhof

Da Folha
Falta esforço para entender a racionalidade econômica não convencional, não liberal; a tarefa não é fácil
Participei da enquete feita pela ombudsman Suzana Singer para sua coluna de 26/1/2014. A questão foi: a cobertura econômica está excessivamente pessimista?
A conjuntura não é ruim, embora tampouco seja empolgante. Porém a observação da grande imprensa sugere um pessimismo exagerado. Por exemplo, na sexta passada, um ganho real dos rendimentos médios de 1,8% em 2013 foi manchete negativa na Folha.
O pessimismo (ou o caráter crítico) é uma marca do jornal. Mas o didatismo e a pluralidade, também. Assim, faço a reflexão a seguir, que vale para o jornalismo econômico em geral.
Meu sentimento é que falta esforço para entender a racionalidade econômica não convencional. A tarefa não é fácil.
O liberalismo econômico tem duas vantagens em termos de persuasão. Por ser um paradigma de equilíbrio, que, na teoria, tem dinâmicas autoajustadas (o equilíbrio geral), é mais simples de entender. Além disso, ele evoca um principio "moral" poderoso: a parcimônia, principalmente quando aplicada a terceiros.
O governo deve gastar menos, buscando a eficiência, para manter a inflação baixa e, assim, dar espaço e confiança aos empresários para investir. Para aumentar a competitividade sistêmica, o gasto público deve priorizar a infraestrutura e a educação. De resto, o livre mercado resolve ou "faz sua mágica".
Um governo agir com uma lógica distinta significa contrariar a "natureza" da economia e invariavelmente tem um resultado final ruim.
A maioria dos economistas crê nisso. Mas o conhecimento econômico tem graves dificuldades de verificação empírica e é viesado por ideologias. Frequentemente, ocorre defesa de interesses específicos como se fosse uma causa pública.
Por isso, a cobertura precisa diversificar suas análises e suas fontes. O período é particularmente relevante, pois o país vive uma batalha ideológica e distributiva em razão da tentativa do governo de enfrentar o histórico problema dos juros altos.
A disputa se iniciou há dois anos e meio, quando o BC baixou os juros, contrariando o manual do mercado. A reação foi histérica (tudo seria voluntarismo) e uníssona nos meios de comunicação. Poucos jornalistas ao menos desconfiaram.
Diante do recrudescimento da crise global, alguns reconheceram o erro. Porém não é fácil mudar de entendimento. Ademais, a tenacidade do rentismo é alta e nem mesmo o governo sinaliza ter disposição para manter o caminho que tomou.
A queda dos juros e a crise mundial explicitaram conflitos que tinham hibernado em razão da apreciação cambial da última década. Agora, há uma disputa de paradigmas: a redistribuição para crescer e seus desequilíbrios (de indicadores econômicos, infraestrutura, sociais etc.) versus a busca por um equilíbrio que promete o crescimento... mas só no futuro.
Nesse contexto, é fácil e legítimo fazer uma cobertura verificando o cumprimento de metas oficiais de inflação e superavit primário. Porém melhor é entender as razões de analistas de distintas cores. Afinal, o ajuste contracionista não é o único caminho possível. As perguntas a seguir sugerem uma investigação.
Superavit primário é relevante em que circunstâncias? A dificuldade de cumprir sua meta significa que a situação fiscal está ruim? O Estado brasileiro é mesmo tão ineficiente? Algum governo pós-democratização fez ajuste fiscal pelo corte de despesas? Se não, por quê? Os gastos públicos são rígidos?
Inflação anual de 6% é alta? Basta compará-la ao atual teto do regime de metas ou à inflação dos países ricos? Um país que passa por mudanças sociais e civilizatórias não tem uma inflação mais alta? Por exemplo, que ocorre se o frete sobe porque a jornada dos caminhoneiros foi mais bem regulada?
Algo parecido vale para o câmbio: um país em desenvolvimento tem balanço de pagamentos mais volátil? Isso implica padrão inflacionário mais elevado? Choques de custo devem ser compensados por juros mais altos e/ou aperto fiscal? Houve reindexação porque a inflação estourou o teto da meta de 2001 a 2003?
As respostas apontam diferenças entre as abordagens econômicas. Há nisso implicações teóricas (neutralidade da moeda, causalidade entre investimento e poupança etc.) e ideológicas, difíceis de entender e separar, repletas de conflitos.
O esforço de traduzi-las seria uma bela contribuição da imprensa para o amadurecimento do país, como tantas vezes ela foi e é capaz de proporcionar.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Mensalão mineiro entra na última fase antes do julgamento no STF

Brasília - O ministro Luis Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que a Procuradoria-Geral da República (PGR) apresente as alegações finais na Ação Penal 536, processo conhecido como mensalão mineiro.
 
Esta é a última fase antes de o processo ficar pronto para julgamento. Toda a parte de instrução do processo, como depoimentos de testemunhas de defesa e de acusação, foi concluída. A expectativa é que ação seja julgada pelo plenário da Corte neste ano. O despacho do ministro foi assinado ontem (15).
 
São apurados supostos desvios de dinheiro público durante a campanha de reeleição do hoje deputado Eduardo Azeredo (PSDB-MG) ao governo de Minas Gerais, em 1998. Após as conclusões da procuradoria, o processo seguirá para as alegações finais da defesa.
 
De acordo com denúncia da PGR, aceita pelo Supremo em 2009, o parlamentar é acusado dos crimes de peculato e lavagem de dinheiro. Segundo a procuradoria, o então candidato teria se beneficiado de recursos oriundos do suposto esquema que envolveu a empresa de publicidade SMP&B, de propriedade do publicitário Marcos Valério, condenado na Ação Penal 470, o processo do mensalão. Outros acusados repondem às acusações na primeira instância da Justiça de Minas, porque não possuem foro privilegiado.
 
Na época em que a denúncia foi recebida, Azeredo negou todas as acusações e disse que não há qualquer documento que confirme o uso de recursos de caixa dois na sua campanha à reeleição. O parlamentar também disse que nunca autorizou repasses para dinheiro para as empresas de Marcos Valério.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Boom do xisto nos EUA já não atrai tanto dinheiro

Do GGN
O jornal americano The Wall Street Journal publicou ontem uma matéria sobre a controvérsia da exploração do gás de folhelho - popularmente gás de xisto - nos Estados Unidos. Segundo a publicação, desde 2008, investidores estrangeiros endinheirados vêm subsidiando o boom da exploração petrolífera americana, enquanto as empresas gastam muito mais dinheiro arrendando terras e perfurando poços do que ganham vendendo petróleo e gás natural.
Mas o fluxo de dinheiro estrangeiro para as petrolíferas americanas está secando. Em 2013, as multinacionais do petróleo gastaram US$ 3,4 bilhões em participações em campos de xisto nos EUA, menos da metade do que investiram em 2012 e um décimo dos seus gastos de 2011, segundo dados da IHS Herold, uma firma de pesquisa e consultoria.
É um sinal de tempos difíceis para as empresas de finanças apertadas que reviveram o setor energético americano. O valor dos negócios ligados a petrolíferas nos EUA caiu 48% em 2013 comparado a 2012, para US$ 47 bilhões, a primeira queda anual desde 2008, segundo a IHS.
Por causa disso, os produtores de petróleo e gás natural dos EUA já começaram a cortar gastos. "Os dias de dinheiro fácil acabaram", diz Amy Myers Jaffe, diretora- executiva de energia e sustentabilidade na Universidade da Califórnia, em Davis. "A ênfase será na redução de custos."
As empresas também estão se voltando para outros investidores, inclusive de private equity e da bolsa de valores, à medida que compradores estrangeiros perdem o apetite pelo setor de petróleo americano. A mudança tem grandes implicações para a indústria de petróleo e gás natural, dizem analistas, porque os investidores de Wall Street tendem a ser mais sensíveis a lucros e aos preços das ações, enquanto os investidores estrangeiros são, historicamente, mais focados na aquisição de tecnologia e reservas de petróleo.
Aos poucos, os preços baixos do gás natural diminuíram o interesse das empresas internacionais pelo xisto americano, e alguns se arrependeram do investimento. 
Em 2013, os preços do gás natural subiram 26%, fechando o ano em US$ 4,23 por milhão de unidades térmicas britânicas. Mas esse aumento se deu a partir de mínimos quase históricos. Os preços do gás natural caíram para menos de US$ 2 em 2012, o nível mais baixo em dez anos, à medida que o crescimento da produção nos EUA e temperaturas amenas (que requerem menos calefação) provocaram um excesso de oferta de combustível. Os preços voltaram a subir no ano passado porque algumas geradoras de energia se voltaram para o gás natural para reduzir o uso de carvão.
Alguns dos maiores financiadores do boom de xisto não esperam que as grandes empresas asiáticas e europeias reabram seus cofres tão cedo.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Fipe indica redução no ritmo de inflação em 2013

Marli Moreira
Repórter da Agência Brasil
São Paulo - O Índice de Preços ao Consumidor (IPC), medido pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) na cidade de São Paulo, encerrou o ano de 2013 em alta 3,88%, ante uma elevação de 5,10% em 2012. Quatro dos sete grupos pesquisados apresentaram variações acima da média, com destaque para educação (7,33%) e saúde (7,07%).
Os preços dos alimentos subiram, em média, 5,42% e no grupo despesas pessoais, 5,58%. A menor variação acumulada no ano foi registrada em habitação, com avanço de 1,96%. Em vestuário foi constatado aumento de 3,02% e no grupo transporte, 2,33%.
Na última apuração do ano, os preços ganharam força, com elevação de 0,65% ante 0,46%, em novembro. O maior aumento ocorreu em transporte, que passou de uma variação negativa de 0,02%, em novembro, para 0,9%, no fechamento de dezembro.
Nos demais grupos foram constatadas as seguintes oscilações: habitação (de 0,44% para 0,56%); alimentação (de 0,8% para 0,65%); despesas pessoais (de 0,74% para 0,79%); saúde (de 0,49% para 0,35%); vestuário (de 0,34% para 0,83%) e educação (de 0,12% para 0,07%).

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

"Geração do diploma" lota faculdades, mas decepciona empresários

Da BBC Brasil
Por Ruth Costas
Número de instituições de ensino superior mais que dobrou desde 2001
Nunca tantos brasileiros chegaram às salas de aula das universidades, fizeram pós-graduação ou MBAs. Mas, ao mesmo tempo, não só as empresas reclamam da oferta e qualidade da mão-de-obra no país como os índices de produtividade do trabalhador custam a aumentar.
Na última década, o número de matrículas no ensino superior no Brasil dobrou, embora ainda fique bem aquém dos níveis dos países desenvolvidos e alguns emergentes. Só entre 2011 e 2012, por exemplo, 867 mil brasileiros receberam um diploma, segundo a mais recente Pesquisa Nacional de Domicílio (Pnad) do IBGE.  
"Mas mesmo com essa expansão, na indústria de transformação, por exemplo, tivemos um aumento de produtividade de apenas 1,1% entre 2001 e 2012, enquanto o salário médio dos trabalhadores subiu 169% (em dólares)", diz Rafael Lucchesi, diretor de educação e tecnologia na Confederação Nacional da Indústria (CNI).
A decepção do mercado com o que já está sendo chamado de "geração do diploma" é confirmada por especialistas, organizações empresariais e consultores de recursos humanos.
"Os empresários não querem canudo. Querem capacidade de dar respostas e de apreender coisas novas. E quando testam isso nos candidatos, rejeitam a maioria", diz o sociólogo e especialista em relações do trabalho da Faculdade de Economia e Administração da USP, José Pastore.
Entre empresários, já são lugar-comum relatos de administradores recém-formados que não sabem escrever um relatório ou fazer um orçamento, arquitetos que não conseguem resolver equações simples ou estagiários que ignoram as regras básicas da linguagem ou têm dificuldades de se adaptar às regras de ambientes corporativos.
"Cadastramos e avaliamos cerca de 770 mil jovens e ainda assim não conseguimos encontrar candidatos suficientes com perfis adequados para preencher todas as nossas 5 mil vagas", diz Maíra Habimorad, vice-presidente do DMRH, grupo do qual faz parte a Companhia de Talentos, uma empresa de recrutamento. "Surpreendentemente, terminanos com vagas em aberto."
Outro exemplo de descompasso entre as necessidades do mercado e os predicados de quem consegue um diploma no Brasil é um estudo feito pelo grupo de Recursos Humanos Manpower. De 38 países pesquisados, o Brasil é o segundo mercado em que as empresas têm mais dificuldade para encontrar talentos, atrás apenas do Japão.
É claro que, em parte, isso se deve ao aquecimento do mercado de trabalho brasileiro. Apesar da desaceleração da economia, os níveis de desemprego já caíram para baixo dos 6% e têm quebrado sucessivos recordes de baixa.
Produtividade da industria aumentou apenas 1,1% na última década, segundo a CNI
Mas segundo um estudo divulgado pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) divulgado nesta semana, os brasileiros com mais de 11 anos de estudo formariam 50% desse contingente de desempregados.
"Mesmo com essa expansão do ensino e maior acesso ao curso superior, os trabalhadores brasileiros não estão conseguindo oferecer o conhecimento específico que as boas posições requerem", explica Márcia Almstrom, do grupo Manpower.
Causas
Especialistas consultados pela BBC Brasil apontam três causas principais para a decepção com a "geração do diploma".
A principal delas estaria relacionada a qualidade do ensino e habilidades dos alunos que se formam em algumas faculdades e universidades do país.
Os números de novos estabelecimentos do tipo criadas nos últimos anos mostra como os empresários consideram esse setor promissor. Em 2000, o Brasil tinha pouco mais de mil instituições de ensino superior. Hoje são 2.416, sendo 2.112 particulares.
"Ocorre que a explosão de escolas superiores não foi acompanhada pela melhoria da qualidade. A grande maioria das novas faculdades é ruim", diz Pastore.
Tristan McCowan, professor de educação e desenvolvimento da Universidade de Londres, concorda. Há mais de uma década, McCowan estuda o sistema educacional brasileiro e, para ele, alguns desses cursos universitários talvez nem pudessem ser classificados como tal.
"São mais uma extensão do ensino fundamental", diz McCowan. "E o problema é que trazem muito pouco para a sociedade: não aumentam a capacidade de inovação da economia, não impulsionam sua produtividade e acabam ajudando a perpetuar uma situação de desigualdade, já que continua a ser vedado à população de baixa renda o acesso a cursos de maior prestígio e qualidade."
Para se ter a medida do desafio que o Brasil têm pela frente para expandir a qualidade de seu ensino superior, basta lembrar que o índice de anafalbetismo funcional entre universitários brasileiros chega a 38%, segundo o Instituto Paulo Montenegro (IPM), vinculado ao Ibope.
Na prática, isso significa que quatro em cada dez universitários no país até sabem ler textos simples, mas são incapazes de interpretar e associar informações. Também não conseguem analisar tabelas, mapas e gráficos ou mesmo fazer contas um pouco mais complexas.
De 2001 a 2011, a porcentagem de universitários plenamente alfabetizados caiu 14 pontos - de 76%, em 2001, para 62%, em 2011. "E os resultados das próximas pesquisas devem confirmar essa tendência de queda", prevê Ana Lúcia Lima, diretora-executiva do IPM.
Especialistas questionam qualidade de novas faculdades no Brasil
Segundo Lima, tal fenômeno em parte reflete o fato da expansão do ensino superior no Brasil ser um processo relativamente recente e estar levando para bancos universitários jovens que não só tiveram um ensino básico de má qualidade como também viveram em um ambiente familiar que contribuiu pouco para sua aprendizagem.
"Além disso, muitas instituições de ensino superior privadas acabaram adotando exigências mais baixas para o ingresso e a aprovação em seus cursos", diz ela. "E como consequência, acabamos criando uma escolaridade no papel que não corresponde ao nível real de escolaridade dos brasileiros."
Postura e experiência
A segunda razão apontada para a decepção com a geração de diplomados estaria ligada a “problemas de postura” e falta de experiência de parte dos profissionais no mercado.
"Muitos jovens têm vivência acadêmica, mas não conseguem se posicionar em uma empresa, respeitar diferenças, lidar com hierarquia ou com uma figura de autoridade", diz Marcus Soares, professor do Insper especialista em gestão de pessoas.
"Entre os que se formam em universidades mais renomadas também há certa ansiedade para conseguir um posto que faça jus a seu diploma. Às vezes o estagiário entra na empresa já querendo ser diretor."
As empresas, assim, estão tendo de se adaptar ao desafio de lidar com as expectativas e o perfil dos novos profissionais do mercado – e em um contexto de baixo desemprego, reter bons quadros pode ser complicado.
Para Marcelo Cuellar, da consultoria de recursos humanos Michael Page, a falta de experiência é, de certa forma natural, em função do recente ciclo de expansão econômica brasileira.
"Tivemos um boom econômico após um período de relativa estagnação, em que não havia tanta demanda por certos tipos de trabalhos. Nesse contexto, a escassez de profissionais experientes de determinadas áreas é um problema que não pode ser resolvido de uma hora para outra", diz Cuellar.
Nos últimos anos, muitos engenheiros acabaram trabalhando no setor financeiro, por exemplo.
"Não dá para esperar que, agora, seja fácil encontrar engenheiros com dez ou quinze anos de experiência em sua área – e é em parte dessa escassez que vem a percepção dos empresários de que ‘não tem ninguém bom’ no mercado", acredita o consultor.
"Tradição bacharelesca"
Por fim, a terceira razão apresentada por especialistas para explicar a decepção com a "geração do diploma" estaria ligada a um desalinhamento entre o foco dos cursos mais procurados e as necessidades do mercado.
 De um lado, há quem critique o fato de que a maioria dos estudantes brasileiros tende a seguir carreiras das ciências humanas ou ciências sociais - como administração, direito ou pedagogia - enquanto a proporção dos que estudam ciências exatas é pequena se comparada a países asiáticos ou alguns europeus.
"O Brasil precisa de mais engenheiros, matemáticos, químicos ou especialistas em bioquímica, por exemplo, e os esforços para ampliar o número de especialistas nessas áreas ainda são insuficientes", diz o diretor-executivo da Câmara Americana de Comércio (Amcham), Gabriel Rico.
Segundo Rico, as consequências dessas deficiências são claras: "Em 2011 o país conseguiu atrair importantes centros de desenvolvimento e pesquisas de empresas como a GE a IBM e a Boeing", ele exemplifica. "Mas se não há profissionais para impulsionar esses projetos a tendência é que eles percam relevância dentro das empresas."
Do outro lado, também há críticas ao que alguns vêem como um excesso de valorização do ensino superior em detrimento das carreiras de nível técnico.
"É bastante disseminada no Brasil a ideia de que cargos de gestão pagam bem e cargos técnicos pagam mal. Mas isso está mudando – até porque a demanda por profissionais da área técnica tem impulsionado os seus salários", diz o consultor.
Rafael Lucchesi concorda. "Temos uma tradição cultural baicharelesca, que está sendo vencida aos poucos”, diz o diretor da CNI – que também é o diretor-geral do Senai (Serviço Nacional da Indústria, que oferece cursos técnicos).
Segundo Lucchesi, hoje um operador de instalação elétrica e um técnico petroquímico chegam a ganhar R$ 8,3 mil por mês. Da mesma forma, um técnico de mineração com dez anos de carreira poderia ter um salário de R$ 9,6 mil - mais do que ganham muitos profissionais com ensino superior.
"Por isso, já há uma procura maior por essas formações, principalmente por parte de jovens da classe C, mas é preciso mais investimentos para suprir as necessidades do país nessa área", acredita.