sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O que se espera de Levy é menos ideologia e mais prudência

http://jornalggn.com.br/noticia/o-que-se-espera-de-levy-e-menos-ideologia-e-mais-prudencia-por-j-carlos-de-assis


Creio que pouca gente que acompanha economia no Brasil tem uma perspectiva muito otimista para este ano. Por um lado, teremos um ajuste macroeconômico que provavelmente custará uma retração de 2 ou mais pontos no PIB. Por outro lado, nada indica que um custo social dessa magnitude representará uma efetiva alavancagem para uma real melhoria da economia em 2016. Em suma, podemos estar entrando num ciclo longo de estagnação e contração como ocorre em vários países europeus submetidos a ajustes do tipo que se vai impor aqui.
Deixo claro que isso não se deve exclusivamente às escolhas ministeriais. Com a situação que temos na balança em conta corrente (US$ 86 bilhões de déficit) não temos graus de liberdade para adotar uma política keynesiana de estímulo à demanda agregada através de políticas monetária, fiscal e cambial. Se tentarmos baixar muito os juros, o que seria desejável para retomar o crescimento, correríamos o risco de uma crise no balanço de pagamentos com a brusca redução de entrada e, ainda pior, com um grande fluxo de saída de capitais.
Se tentássemos jogar para os ares o superávit primário e ampliar o gasto público de forma a sustentar um rápido crescimento da demanda agregada e do investimento, correríamos dois riscos, um objetivo, outro de fundo ideológico. Objetivamente, na vigência de taxas de juros básicas muito altas, como é o nosso caso, os estímulos fiscais não funcionam, ou funcionam ao contrário: o gasto público adicional ou é esterilizado pela taxa de juros ou se converte em demanda externa, agravando a crise na balança em conta corrente.
O segundo risco é de natureza ideológica, mas sendo capaz de converter-se rapidamente em um problema objetivo, ou seja, a desclassificação pelas agências de risco. Sabemos muito bem que, em recessão, o aumento do déficit público não gera inflação necessariamente. Entretanto, usando o pretexto da inflação, as agências de risco agem como vigilantes da confiabilidade do déficit e da dívida pública. Enquanto isso fosse apenas um problema ideológico, poderíamos simplesmente levar as mãos e ir adiante. Mas não é o caso.
Uma desclassificação implica o aumento do custo da tomada de novos empréstimos externos e de renovação das dívidas antigas para governo, empresas e instituições financeiras. Seria traumático para o setor privado e tremendamente desconfortável para o setor público. Podemos não gostar disso, mas isso é da natureza de uma ordem global denominada “arquitetura financeira internacional”, da qual nós só escaparemos – e aqui estou adiantando tema para outro artigo, este mais otimista – no contexto de um aprofundamento das relações com os BRICS.
Temos uma estreita margem de manobra no câmbio. Se desvalorizarmos mais, abriremos um pouco o espaço para as exportações de manufaturados: isso seria fácil, pois bastaria que o Banco Central manobrasse o pião na compra e venda de dólares. Entretanto, não é uma receita fácil porque, se usada para além de um nível que acomode mudanças de preços relativos, pode gerar inflação: os preços externos se tornarão mais caros internamente, e grande parte dos preços internos se alinharão aos internacionais que seriam mais elevados.
Tudo isso é para dizer que, no campo macroeconômico, não temos mesmo muita margem de manobra para superar a crise de estagnação em que estamos. Contudo, o fato de respeitarmos as margens não significa que automaticamente vamos fazer as coisas certas. Concordo com muita coisa que o ministro Joaquim Levy disse em duas grandes entrevistas, uma em Valor e outra no Estadão. Refletem o mesmo realismo exposto acima. Entretanto, algumas declarações parecem sair do obituário revigorado do Consenso de Washington.
Vou me ater apenas a um ponto: o que ele chama de “dualidade” do mercado de crédito. Ele propõe acabar com essa “dualidade” a partir de uma analogia: teríamos acabado com a dualidade no mercado de trabalho e a dualidade no mercado de câmbio, o que resultara bom para todo mundo. Ora, é falso que tenhamos acabado com a dualidade no mercado de trabalho. O mercado de trabalho informal reduziu-se, mas não acabou. E reduziu-se não em função de qualquer mudança institucional relevante – exceto da Lei das Domésticas -, mas por força do aumento do emprego e da renda média que turbinaram os serviços, por onde se ampliou a formalização. Mesmo a dualidade no câmbio não acabou; temos câmbio para turismo e câmbio para comércio. E isso não dói em ninguém.
O que significa exatamente acabar com a “dualidade” no mercado de crédito? Acaso significa eliminar o crédito público como instrumento de política, inclusive de política anticíclica, como aconteceu notoriamente com imensas vantagens para o Brasil em 2009 e 2010? E o que faríamos, eliminando a “dualidade”, com os fundos públicos de longo prazo administrados pelo BNDES e Caixa? Suponho que serão repartidos com os bancos privados para que eles apliquem à taxa que quiserem, a exemplo das pornográficas taxas atuais, apropriando-se de uma margem razoável. Isso democratizaria o crédito? Acho que democratizaria o alto custo do crédito!
O fato de essa ser uma posição essencialmente ideológica – não quero levantar suspeitas de favorecimento aos bancos privados - me deixa um pouco tranquilizado, pois acredito que as forças reais presentes na sociedade brasileira, a despeito dos banqueiros que a inspiram, não a deixarão acontecer por razões de sobrevivência. O outro ponto ideológico da entrevista de Levy é a clara defesa de acordos de livre comércio com os Estados Unidos e a União Europeia. Tudo isso se originou no falido Consenso de Washington, e tudo isso está sendo revivido tendo em vista a profundidade da crise em que estamos e certo desespero diante dela por parte de pessoas com a responsabilidade de enfrentá-la. A tendência, nesse caso, é se encostar em alguma autoridade externa para se legitimar num ambiente indefinido. Da mesma forma que a “dualidade” do crédito, os tratados de livre comércio provavelmente não acontecerão, não porque sejam “tecnicamente” equivodados, mas por razão de sobrevivência da indústria brasileira.
Em qualquer hipótese, o melhor caminho que o Ministro deve tomar é o da prudência. Lembro a ele um incidente que me foi relatado por Luís Pinguelli Rosa, então presidente da Eletrobrás nos idos de 2003 e 2004. Pinguelli estava determinado, por razões essencialmente técnicas, a construir a segunda etapa de Tucuruí. Tinha os estudos e todo o dinheiro necessário. Joaquim Levy, então secretário do Tesouro, o procurou e tentou convencê-lo muito cortesmente, por todos os meios, a abandonar o projeto. Certamente queria o dinheiro para fazer superávit primário dentro da política de Palocci. Pinguelli resistiu, a obra começou e afinal o potencial de Tucuruí foi duplicado. Se isso não tivesse acontecido, estaríamos hoje em risco de racionamento. E a situação fiscal não seria diferente de hoje. Portanto, ministro Levy, aja com prudência, veja o que vai cortar!
J. Carlos de Assis - Economista, doutor pela Coppe/UFRJ, professor de Economia Internacional da UEPB.

O Lulismo acabou mais cedo

http://jornalggn.com.br/blog/sergio-saraiva/o-lulismo-acabou-mais-cedo-por-sergio-saraiva


Torço pelo sucesso do governo Dilma neste 2015 que será um ano dos mais difíceis. Mas não posso mais considerá-lo como um governo trabalhista.

Avaliava que o lulismo se encerraria em 2018 – um fim de ciclo natural. Acabou antes do fim do ano de 2014.
Há símbolos que não podem ser quebrados. E, desde 30/12/2014, mais do que um símbolo, um elo de confiança entre o governo e os trabalhadores foi rompido.
Nesse dia, um governo tido como trabalhista e eleito com iludidos votos trabalhista anunciou uma brutal redução de benefícios trabalhistas. Atingindo os mais frágeis, os pensionistas, os desempregados e os afastados por doença. Pensões reduzidas à metade ou simplesmente negadas. 
Não há como não sentirmo-nos traídos. E em uma relação de confiança, aceita-se fazer sacrifícios para mantê-la, mas nenhuma relação de confiança resiste a uma traição.
Os trabalhadores foram responsabilizados pelo ônus do reequilíbrio fiscal. Aos trabalhadores foram cobrados 18 bilhões de reais ao ano em direitos trabalhistas. E direitos trabalhistas uma vez retirados jamais são recuperados. Do outro lado, 60 dias antes, os financistas haviam sido agraciados com um acréscimo de 0,25% de juros a uma SELIC já indecente. São agora 11,25% de juros ao ano para uma inflação anual de 6,5%. Cada 1,5% da taxa de juros correspondem a um Bolsa-Família.
FHC não fez pior.
Tenho na minha memória o governo FHC. O fator previdenciário que tira dos mais pobres parte da aposentadoria é indecoroso. Mas foi apresentado por esse governo como a correção de uma distorção, como necessário às “futuras gerações” e como um imperativo moral. Impedia que vagabundos se aposentassem cedo. Eu, filho de uma família pobre que precisou começar a trabalhar aos 14 anos, tornei-me um vagabundo após 35 anos ininterruptos de trabalho e contribuições.
Na mesma época, não eram vagabundos os patrões que reduziam os encargos da sua folha de pagamentos com a precarização das relações trabalhistas. Trabalhadores sem carteira assinada e terceirizados foram as marcas dos governos FHC. Funcionários tornados "pessoas jurídicas" que deixaram de receber contracheques e passaram a emitir nota fiscal aos patrões.
O fator previdenciário continua tal como qual. À bem da verdade, nem “Lulinha paz e amor” nem “Dilma, mãe do PAC” fizeram algo para reverter essa espoliação. Agora, o governo Dilma a intensifica.
No penúltimo dia do seu 1º mandato, assisti abismado Aloizio Mercadante, o mais inodoro dos próceres petistas, usar do mesmo moralismo hipócrita. Tratava-se não de redução de benefícios, mas sim de “moralizar” o pagamento desses benefícios. Sim, as viúvas são as culpadas de se tornarem viúvas cedo demais para o que o governo Dilma julga ser o momento adequado para terem seus maridos falecidos. Imorais são os trabalhadores desempregados antes de um ano e meio de contribuição ou que se adoentam. São os neo-vagabundos dilmistas.
Mas não é imoral conceder desoneração fiscal da folha de pagamentos para multinacionais estrangeiras e de capital fechado.
Continuo torcendo pelo sucesso do governo Dilma, faço votos que o país cresça, mas estou inseguro quanto à garantia de que os trabalhadores se apropriarão da riqueza vinda desse crescimento. O capital venceu a esperança.
Como uma piada, melhor seria se Aécio tivesse vencido, poderíamos, ao menos, sonhar com um futuro governo petista.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

JN fala da greve dos lixeiro de Americana sem falar por que eles estão em greve

Seguindo a tradição da Globo de dar a notícia incompleta e parcial, hoje o Jornal Nacional de hoje (29/12/14) falou da greve dos lixeiros de Americana (interior de SP) como se fosse apenas uma simples greve. Ainda complementa a informação dizendo que a greve é ilegal pois a justiça mandou que 60% dos serviços estivessem em operação. O que a justiça vai mandar fazer? Suspender o pagamento?

A Globo só omitiu que a greve é por falta de pagamento dos funcionários públicos por causa do total descalabro da administração municipal. O prefeito Diego De Nadai, do PSDB, foi cassado por fazer mutretas nas contas de campanhas. Deixou a prefeitura em situação de penúria, como a cidade ficou um tempo sem prefeito, ficou uma completa zona.

Houve outra eleição para prefeito em dezembro. O novo prefeito toma posse em 9 de janeiro.

Quando o PSDB tá no meio, há todo um cuidado para não citá-lo.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Dias melhores verão

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/janiodefreitas/2014/12/1565520-dias-melhores-verao.shtml

Pode ser, e suspeito que seja, mero jogo de cena, para cedo cantarem vitória sobre os alegados indícios que, agora, levam a más expectativas para o próximo ano. Não fazem sentido as previsões negativas que repetem para jornalistas o presidente do Banco Central, os futuros ministros da Fazenda e do Planejamento, e seus companheiros nas teses de governo pró-"mercado". 

"A inflação no que ano que vem vai ser maior", exemplifica uma frase de Alexandre Tombini. Ou, nas palavras de Joaquim Levy, o que precisa ser feito "será firme e rápido", o que, além de insinuar incomprovada urgência crítica, parece uma elegância ilusória para o mais conhecido "curto e grosso". 

Certo é que a direção do governo importa mais, para a maneira como se pinta a situação do país, do que os números arbitrários usados na propaganda contra ou a favor de um ministro, do governo ou de quem preside. 

Uma equipe econômica aliada e alinhada prioritariamente com os interesses do capital desfruta de habeas corpus. Mailson da Nóbrega levou a inflação a 84%. Ao mês. Sem ser criticado, só saiu porque o governo Sarney acabou. 

Todos os números do governo Fernando Henrique são piores do que os atuais, mas Pedro Malan, como Mailson, como Marcílio Marques Moreira e tantos outros, saiu do governo para o abrigo gratificante de grandes empresários. 

Guido Mantega não foi alvo solitário. O grosso da pancadaria dirigiu-se a Dilma Rousseff. E nisso se dá o primeiro efeito da troca de Mantega por Levy: a menos que queira palpitar, Dilma deixa de ser atacada em razão da política econômica, porque fazê-lo atingiria também Levy e seus parceiros. 

Para Dilma, é um lucro muito grande. Ela não soube defender o seu governo, nem a si mesma e, muito menos, o atacado gasto governamental, decorrente — como disse no Congresso o secretário do Tesouro, Arno Augustin — "da estratégia de elevar os investimentos e gastos sociais, o que trará ganhos de longo prazo para o Brasil". 

Por mim, quando leio um título negativo como "Sete milhões passam fome no país", prefiro saber que, por baixo dele, diz-se que em dez anos caiu de 6,9% para 3,2% o número de famílias com "insegurança alimentar grave". 

Ou seja, as moradias onde possa haver fome são, hoje, menos da metade do que eram em 2003. Posta a redução em números humanos: de 15,5 milhões de pessoas para 7,2 milhões. Ou 8,3 milhões de crianças, adultos e velhos resgatados da fome ou do risco de sofrê-la. 

O que sobrará para a fazer a continuidade desse avanço de vida? Por ora, as esperanças de mais vida só podem ser postas em generosidades do verão que chega hoje. 

Rica promessa 

Se respeitadas as proporções, "a maior corrupção da história" nem acabou de ser apurada na Lava Jato, mas seu título já passou da gigante Petrobras para o minúsculo município fluminense de Itaguaí. 

Seu prefeito de apenas 32 anos, Luciano Mota, montou um bando que desviou POR MÊS, pelo apurado até agora, entre R$ 10 milhões e R$ 30 milhões da prefeitura, cuja arrecadação mensal média é de R$ 90 milhões. Os desvios incidiram sobretudo nos repasses do governo federal, por participação no pré-sal e para o SUS. 

Vou falar baixinho, para o senador Aécio Neves não ouvir: Luciano Mota foi até agora um dos jovens políticos promissores, com outros integrantes da quadrilha, do PSDB. 

Vale a pena 

Duas convictas sugestões de leitura, que, hoje, também são de presente. "O Estado Empreendedor - desmascarando o mito do setor público versus setor privado" é uma demonstração muito interessante de que os grande avanços científicos e tecnológicos, "da internet à indústria farmacêutica" e ao iPhone de Steve Jobs, provêm de empenho do Estado. 

Há casos surpreendentes na trama levantada por Mariana Mazzucato, professora na Universidade de Sussex, no Reino Unido. O livro foi sucesso na Europa e nos Estados Unidos. 

"Cartas Extraordinárias" é uma seleção, por diferentes critérios, da "correspondência inesquecível de pessoas notáveis", mas, na verdade, da correspondência esquecida ou nem conhecida de pessoas, elas próprias, extraordinárias. Comecei-o sem sequer curiosidade. E não larguei mais. 

Janio de Freitas

No fAlha 

sábado, 27 de dezembro de 2014

BC repensa uso de instrumento para conter câmbio

http://jornalggn.com.br/noticia/bc-repensa-uso-de-instrumento-para-conter-cambio


Jornal GGN - O Banco Central vem injetando desde agosto de 2013 doses generosas de swaps cambiais no mercado, quando lançou o programa de leilões cambiais. A intervenção já soma US$ 109 bilhões e o objetivo é afetar a cotação do dólar. O custo da operação já começa a aparecer uma vez que toda vez que isso ocorre há uma expansão na base monetária e aumenta a dívida bruta do governo.
Leia mais na matéria abaixo.

Do Valor Econômico
Por Alex Ribeiro
A livre flutuação é o melhor regime de câmbio, exceto quando a cotação do dólar flutua. O Banco Central já injetou US$ 109 bilhões em swaps cambiais no mercado. Agora que o custo fiscal dessas operações começa a aparecer - e fica claro que o ajuste externo ainda está inconcluso -, a estratégia de oferecer doses generosas de proteção cambial para o mercado financeiro já é questionada por membros da antiga e da nova equipe econômica.
 
Somente em dezembro, até o dia 19, o Banco Central teve que depositar R$ 12,871 bilhões na BM&F para pagar os ajustes exigidos em contratos de swap cambial pela forte desvalorização do real no mês. Há uma discussão se esses pagamentos representam, de fato, perdas para o Banco Central - certamente não. Quando perde na BM&F com a desvalorização cambial, o BC registra também um ganho na contabilização das reservas internacionais, que são referenciadas em dólares. Em termos líquidos, o BC lucra porque as reservas equivalem a mais de três vezes o volume de swaps cambiais em mercado.
 
O Banco Central tem se esforçado para mostrar isso. Mas não dá para escapar do fato de que, a cada centavo depositado pelo BC na BM&F, ocorre uma expansão monetária e um aumento imediato na dívida bruta do governo geral. Esse é o indicador usado por investidores estrangeiros e agências internacionais de classificação de risco de crédito para aferir a sustentabilidade fiscal do país. E se tornou ainda mais importante recentemente, quando o futuro ministro da Fazenda, Joaquim Levy, assumiu o compromisso de perseguir a estabilidade e o declínio da dívida bruta num prazo de dois a três anos.
 
Desde que o BC começou a ofertar swaps cambiais, em maio de 2013, para se contrapor aos efeitos no Brasil da mudança na política monetária dos Estados Unidos, os swaps cambiais já causaram uma perda contábil de R$ 14,7 bilhões. Os pagamentos feitos pelo BC se tornaram mais pesados, em particular, depois de agosto. De lá para cá, somaram R$ 33,2 bilhões. A cifra equivale a mais de 0,6 ponto percentual do Produto Interno Bruto (PIB) e, grosso modo, representa quase metade do superávit primário prometido por Levy para 2015, de 1,2% do PIB.
 
Se o programa de leilões cambiais não provocasse dissabores suficientes nas contas fiscais, também impõe uma trava na desvalorização cambial e retarda um ajuste nas contas externas que parece inevitável. O discurso oficial do BC é que, com a oferta de instrumentos cambiais, não tenta determinar a taxa de câmbio, apenas evita volatilidade desnecessária do dólar e garante que esse mercado permaneça funcional. O diagnóstico do BC é que, num momento de grande incerteza, os swaps cambiais apenas fornecem proteção cambial ao mercado quando ninguém mais está disposto a fazê-lo.
 
Mas é fato reconhecido pelo próprio BC, em relatórios de inflação e em trabalho de discussão de seus economistas, que as intervenções no mercado futuro de câmbio afetam a cotação do dólar. O BC pode ter ganhos de curto prazo nessa batalha, mas a tendência do dólar é determinada por forças mais potentes. O câmbio está sendo empurrado para um novo valor de equilíbrio diante da perspectiva de condições monetárias menos relaxadas nos Estados Unidos, da desaceleração do crescimento da China e da queda de preços de commodities, sem mencionar a perspectiva de contenção fiscal entre 2015 e 2016. Nessa conjuntura, as intervenções acabam gerando mais volatilidade que o necessário.
 
Em agosto de 2013, quando o BC lançou o programa de leilões cambiais, que prevê vendas diárias de montantes fixos de dólares no mercado futuro, a taxa de câmbio chegava perto de R$ 2,50. O dólar caiu nos meses seguintes, chegando a R$ 2,16 em outubro de 2013. Mas, no fim das contas, acabou voltando a subir para valores em torno de R$ 2,70.
 
O maior prejuízo é adiar um urgente ajuste externo. Não é só o déficit em conta corrente, estimado em US$ 83,5 bilhões, que vai pesar no balanço de pagamentos em 2015. O Brasil também tem uma montanha de R$ 102 bilhões da dívida externa de curto e longo prazo que vence durante o ano.
 
No total, o Brasil terá que atrair US$ 186 bilhões em empréstimos e investimentos externos em 2015 para financiar suas contas externas. É muito dinheiro.
 
Os vencimentos previstos da dívida externa em 2015 são um tanto pesados, comparados com anos recentes. Em dezembro de 2013, por exemplo, o Banco Central projetava um total de US$ 63,8 bilhões em vencimentos da dívida externa em 2014, considerando curto e longo prazos. Em 2012 e 2013, os vencimentos projetados eram um pouco superiores a US$ 40 bilhões. Em 2011, de apenas US$ 28 bilhões.
 
A premissa de trabalho do Banco Central é que 100% dos empréstimos de médio e longo prazo sejam rolados em 2015. A julgar pelo desempenho de anos passados, não é algo impossível. Em 2014, a taxa de rolagem, entre janeiro e novembro, foi de 157%. Mas o patamar de valores é bem mais alto, e o ambiente internacional, desafiador, com a provável alta de juros americanos e os prejuízos à imagem do país provocados pelo Petrolão.
 
A estratégia de oferecer "swaps" cambiais já tinha críticos dentro do governo e, agora, parece que finalmente o BC acordou - por isso vem comunicando que os swaps em mercado já atendem a demanda por proteção. A ideia, aparentemente, era parar de oferecer novos instrumentos. Mas a volatilidade da taxa nos últimos dias fez com que BC anunciasse a extensão do programa, ainda que possivelmente em volumes menores nas ofertas diárias.
 
Aos poucos, o governo está recompondo as bases do tripé de política macroeconômica. Levy prometeu levar o superávit primário a não menos do que 2% do PIB em dois anos. O presidente do BC, Alexandre Tombini, estabeleceu pela primeira vez em três anos um horizonte claro para cumprir o centro da meta de inflação, de 4,5%: dezembro de 2016. Agora, falta recuperar o câmbio flutuante. Para tanto, será preciso perder o medo de deixar o câmbio flutuar e usar o instrumento adequado - os juros - para conter a inflação

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Lava Jato constata que Venina participou dos golpes de Paulo Roberto, Duque e Barusco

http://jornalggn.com.br/noticia/lava-jato-constata-que-venina-participou-dos-golpes-de-paulo-roberto-duque-e-barusco

 
Jornal GGN - Delegados e procuradores da Lava Jato vazaram para o Estadão documentos que comprovam o envolvimento de Venina Venola da Fonseca com os principais envolvidos nos golpes contra a Petrobras.
 
Os documentos vazados comprovam que a Petrobras abriu sindicância para apurar irregularidades em contratos da Abreu e Lima. “(Venina) Responsável, em conjunto com o Sr. Pedro José Barusco Filho, então Gerente Executivo da Engenharia, pelo encaminhamento dos DIP’s (Documento Interno do Sistema Petrobrás) de instauração de processos licitatórios e solicitação de autorização para contratação dos serviços de construção e montagem da Rnest, entre abril de 2007 a outubro de 2009, sem que os projetos básicos estivessem suficientemente detalhados”, informa comissão de sindicância da Petrobrás.
 
A comissão identificou as seguintes irregularidades:
 
- Falta de encaminhamento à Diretoria Executiva da mudança na estratégia de contratação  da empresa Alusa Engenharia. Nos documentos assinados por Venina Velosa da Fonseca e Pedro Barusco, e encaminhados à Diretoria Executiva por Renato Duque e Paulo Roberto Costa não houve comunicação de mudança nos contratos
 
- Negociação de proposta, após encerrado o processo licitatório e a respectiva aprovação da contratação pela Diretoria Executiva, da empresa Alusa Engenharia e desconsideração de desconto de R$ 25 milhões aceito pela empreiteira
 
- Falta de inclusão de empresa em novo processo licitatório, envolvendo os consórcios formados pelas empresas Odebrecht/OAS; CNCC (Camargo Corrêa/CNEC); e Queiroz Galvão/IESA
 
- Falta de emissão de parecer jurídico em quatro processos licitatórios, envolvendo as empresas Orteng; Invensys; Engevix; e Consórcio Enfil/Veolia
 
 
O link com o relatório pode ser consultado aqui

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Venina, ou a delação vazia para aparecer como musa do verão

http://jornalggn.com.br/noticia/venina-ou-a-delacao-vazia-para-aparecer-como-musa-do-verao
Por J. Carlos de Assis*
A musa do verão deste ano no Rio chama-se Venina. É um produto da parceria jornal Valor e Tevê Globo. A palavra é da mesma raiz de veneno, mas o princípio ativo é de muito má qualidade. Na verdade, precisou de ser embalado triplamente para envenenar a opinião pública brasileira contra a presidente da Petrobrás. O mais forte sortilégio para o envenenamento foi uma entrevista de 25 minutos de Venina no Fantástico; o segundo, uma reapresentação dos “melhores momentos” da entrevista no Jornal Nacional; terceiro, uma tréplica do Jornal Nacional depois da  entrevista de Graça Foster, que a havia desmentido.
O que continha a entrevista de 25 minutos? Tinha, essencialmente, uma antiga denúncia significativa a propósito de irregularidades no setor de Comunicação. Foi em 2008, Graça estava longe de ser presidente. Gerou uma comissão de inquérito, e da comissão de inquérito resultou a demissão do responsável, retardada porque ele estava de licença médica. Portanto, essa denúncia teve pleno efeito. Acaso houve outra denúncia objetiva a respeito de mais irregularidades na Petrobras? Só a suprema má fé ou imbecilidade dos jornalistas do Fantástico e do Jornal Nacional justificariam uma resposta positiva.
Nada, nenhuma sombra do que Venina disse na entrevista pode se aproximar sequer um milímetro das grandes trapaças que o diretor de que foi gerente por anos, Paulo Roberto, praticou na empresa. Ele próprio negou qualquer relevância nas supostas denúncias dela.  É até possível que ela tivesse ouvido o galo cantar, mas não sabia onde. No e-mail para Graça Foster que se tornou uma espécie de peça de resistência de suas denúncias, conforme reiterou várias vezes, só há palavras vagas e imprecisas, impossíveis de serem tomadas como indicações objetivas de irregularidades. Imaginem, uma empresa de 85 mil funcionários, cada um mandando e-mails vagos para todo lado, superiores e pares!
E quanto à credibilidade da musa? Sim, alguém descobriu que ela havia assinado pela Petrobras dois contratos, em 2004 e 2006, com alguém que viria a ser seu marido. É verdade que ela correu para dizer que o contrato foi descontinuado depois que ela se casou formalmente em 2007. Questão ética. Imaginem agora se a Globo fosse tão perversa com ela como tem sido com Graça Foster? Os repórteres do Fantástico correriam para dizer ao Brasil e ao mundo que contratar pela Petrobrás com namorado pode, mas não com marido! Aliás, como é que foi exatamente essa descontinuação contratual? Teve multas? Pagas por quem?
E quanto à motivação de Venina? Sou incapaz de dizer alguma coisa. É preciso convocar  psicólogos. Noto apenas que, quando há uma massificação de qualquer assunto pela grande mídia, aparecem malucos por todo lado para surfarem na onda e tentar aparecer. É claro que isso não aparece do nada. O gigantesco episódio de corrupção na Petrobras, descoberto por eficazes instrumentos de investigação, notadamente a delação premiada, uma vez descoberto pode suscitar a exaltação de um ego gigantesco capaz de achar realmente que sabia de tudo antes, e tudo denunciou no tempo certo.
Agora vejamos por que a Globo e grande parte da mídia querem derrubar Graça Foster. O esclarecimento está numa agenda de bolso da Petrobrás de 2015. Ela diz: em 2006 foi descoberto o pré-sal; em 2014, o pré-sal está produzindo 520 mil barris por dia; a produção acumulada chegou a 360 milhões de barris; a vazão média por poço é de 25 mil barris/dia; o tempo médio de perfuração de poços no pré-sal nos campos de Lula e Sapinhoã passou de 134 dias em 2010 para menos de 60 dias em 2013. Alguém viu ou ouviu a Globo falar sobre isso?
Ora, essas conquistas da Petrobrás são intoleráveis para os que querem entregar nosso petróleo às grandes petroleiras mundiais, inclusive mediante a mudança do regime de exploração conforme acaba de ser proposto pelo tucano Aloysio Nunes em projeto na Câmara. O oportunismo é descarado. Estão tentando transformar a corrupção na Petrobrás, praticada por um punhado de bandidos, em corrupção da Petrobrás, como  pretexto para esquartejar, aí sim, a empresa, subtraindo ao Brasil seu principal instrumento de desenvolvimento.
*Economista, doutor pela Coppe/UFRJ, professor de Economia Internacional da UEPB.