terça-feira, 10 de março de 2009

Crise muda e encarece o crédito

Fernando Travaglini, de São Paulo
Valor Econômico 10/03/2009

Seis meses de crise foram suficientes para mudar o perfil do crédito. A forte expansão das carteiras dos últimos anos, feita com taxas de juros em queda e prazos mais longos, perdeu força e os bancos voltaram a oferecer linhas mais caras e curtas.

Para as empresas, o prazo médio do capital de giro, em janeiro, bateu em 384 dias, recuo de 21% (104 dias) em relação ao patamar de janeiro do ano passado. Nesse mesmo período, os juros subiram 7,4 pontos percentuais, sendo 3,2 desde o agravamento da crise dos mercados globais, em setembro, para 36,8% ao ano (prefixada).

Para as famílias, as linhas mais longas e baratas continuam desacelerando. O saldo para financiamento de veículos (incluindo leasing) está praticamente no mesmo patamar desde setembro (queda de 0,2%) e o prazo para compra do usado voltou a cair, de 51 para 48 meses, em fevereiro (dados da Assovesp).

Já as concessões mensais de empréstimos consignados caíram 14,1%, em janeiro, em comparação com o mesmo mês do ano anterior (10,16% em relação a setembro de 2008).

Enquanto está mais difícil acessar recursos com prestações longas, o aumento da inadimplência faz com que as pessoas recorram a linhas de auxílio rápido para cobrir o orçamento familiar. O uso do cheque especial, cujas taxas estão em 170% ao ano, avançou 9% em relação a janeiro do ano passado. O giro mensal do rotativo do cartão de crédito cresceu 43,7% nesse período (23,7% desde setembro), puxado pelas compras de Natal.

A participação dessas duas modalidades no total de concessões mensais, que vinha recuando nos últimos anos - chegou a representar 54% do total -, voltou a subir. Em janeiro respondeu por 66% dos recursos destinado às pessoas físicas.

Essa mudança estrutural, tanto para consumidores quanto para empresas, se deve à postura mais conservadora dos bancos em meio às incertezas. Com menos recursos no mercado externo, que garantiam o funding mais longo, as instituições preferem reduzir a oferta, se valendo de prazos mais curtos, spreads mais altos e maior rigor na concessão. Optam, também, por manter recursos em caixa para evitar problemas de liquidez.

Esse novo contexto surgiu de uma forma muito rápida, desde a quebra do banco americano Lehman Brothers, em 15 de setembro de 2008. Seis meses depois, o estoque de crédito no Brasil, que até meados de 2008 vinha crescendo a taxas superiores a 30%, permanece praticamente no mesmo patamar - o crédito com recursos livres para pessoas físicas cresceu em termos anuais 2,5%. Para empresas, o avanço anualizado foi de 12,8%.

"Antes da crise, o crédito para empresas crescia 35% em bases anuais. O simples fato de sair de 35% para zero é um baque muito grande para as empresas", analisa Júlio Gomes de Almeida, professor da Unicamp e ex-secretário de política econômica do Ministério da Fazenda.

Por conta do cenário adverso, Almeida espera um crescimento quase "vegetativo" para o crédito, não maior do que 5% nesse ano. "É importante analisar que o crédito hoje é mesmo de quatro meses atrás, mas tem mais gente disputando os mesmo recursos. Quando a empresa não encontra crédito, não fica parada, ela empurra para o fornecedor ou para o cliente, quando pode fazer isso, ou reduz o nível de atividade."

Duas medidas poderiam ser tomadas, segundo ele, para amenizar a situação. A primeira seria uma redução mais acentuada da Selic, na reunião do Copom que começa hoje, para reduzir o custo de atratividade de não emprestar. Além disso, deveria haver uma alguma vinculação entre a liberação dos compulsórios por parte do Banco Central e o empréstimo de recurso para a população.

Parte da desaceleração se deve ainda ao menor apetite dos bancos médios, que atendiam as empresas de pequeno e médio porte, e das financeiras, no caso das famílias. Até mesmo os varejistas reduziram a oferta, seja porque está mais difícil para o comércio fazer a ponte com o crédito bancário, hoje escasso, seja porque a inadimplência em alta reduziu a atratividade dessas operações.

Há também uma clara substituição dos bancos comerciais pelo BNDES na concessão de empréstimos. Enquanto o saldo de operações com recursos livres cresceu 4,1%, desde setembro, as operações feitas diretamente pelo banco de desenvolvimento (sem repasse) avançaram 18,3%.

Da mesma forma, os bancos públicos têm atuado para tentar minimizar esses efeitos. O estoque de empréstimos dessas instituições avançou 8,2% no período, enquanto os privados cresceram 2,7% e os estrangeiros, 3,5%. Antônio Sérgio de Carvalho Rocha, gerente executivo da diretoria de micro e pequenas empresas do Banco do Brasil, destaca que na instituição não houve redução de prazo, carência ou aumento de exigências.

sexta-feira, 6 de março de 2009

O BC facilitando a vida dos banqueiros

Até meados de 2008 (antes de estourar a crise americana), os bancos faziam a farra aproveitando-se do grande diferencial de juros criado pelo nosso iluminado presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Tomavam dinheiro lá fora a taxas muito menores do que os juros oficiais e emprestavam aqui no Brasil.

Depois de setembro/2008 a fonte secou. As dívidas vencendo e os bancos com um pepino nas mãos. O que o BC fez? Fez das nossas reservas internacionais acumuladas com tanto custo um seguro para aqueles que trouxeram dólares para o Brasil quando não eram necessários e agora precisam sair do país.

As linhas foram criadas com a desculpa de beneficiar as empresas, mas na verdade o BC está garantido a saída tranquila dos recursos de curto prazo que entraram no país fazendo o câmbio se valorizar demais tornando nossas exportações menos competitivas.

O BC ainda conta vantagem dizendo que a operação é muito vantajosa. As reservas tem um custo de mais ou menos 12% aa e o BC fornece dólares aos bancos remunerados pela LIBOR + 1,5%aa (atualmente a LIBOR oscila em torno de 2% aa).

O BC é tão submisso ao sistema financeiro que nem exigiu que os bancos não pesassem a mão nos spreads ao repassar esses recursos às empresas.

Leia também:
Para onde estão indo os dólares do BC

quarta-feira, 4 de março de 2009

Islândia X Argentina

Em 2001 o modelo neoliberal afundou na Argentina, o PIB caiu 10,9%. Em 2009, A Islândia, país-modelo da globalização, não tem um centésimo da população argentina mas produziu um calote bem maior que o do nosso vizinho. O PIB do pacato e ordeiro país nódico caiu 12% em 2008.

Seus bancos estavam endividados em moeda estrangeira, o governo da Islândia não podia imprimir dólares ou euros para salvá-los. Então afundaram...

Leia mais sobre a crise na Islândia...
O paraíso perdido do neoliberalismo (Carta Capital 22/10/2008 nr 518)

Ipea sugere redução gradual da taxa Selic em 2009

IPEA 04/03/2009 - 17:13

Corte de 5,75 p.p. na próxima reunião do Copom economizaria R$ 43 bilhões

"É possível enfrentar a crise de uma forma contundente, fazendo algo que o mundo inteiro está fazendo: reduzindo a taxa de juros." A afirmação foi feita pelo diretor da Diretoria de Estudos Macroeconômicos (Dimac) do Ipea, João Sicsú, ao apresentar hoje, em Brasília, a nota técnica "A gravidade da crise e a despesa de juro do governo" .

"Cortar gastos sociais, correntes, ou de investimento significa reduzir a demanda da economia e as possibilidades de crescimento. Com menor crescimento, haverá menos arrecadação. Portanto, cortar gastos públicos cujos multiplicadores de renda e emprego são relevantes significa ampliar as dificuldades de arrecadação, criar um problema fiscal e aprofundar a crise de demanda que se instalou no setor privado da economia", alerta João Sicsú.

Segundo o técnico do Ipea Roberto Messenberg, é possível enfrentar a crise mantendo ou ampliando os gastos do governo, sem desorganizar as finanças públicas. "Basta reduzir um ponto percentual na taxa Selic em cada uma das próximas reuniões ordinárias do Comitê de Política Monetária (Copom) e uma redução de 0,75 p.p. na reunião seguinte", diz. Essas reduções, do patamar atual de 12,75% para 7% ao ano, economizariam R$ 30 bilhões. "Se esta redução de 5,75 p.p. ocorresse já na próxima reunião do Copom, a economia fiscal em 2009 seria de R$ 43 bilhões", afirma.

Segundo a nota, a explicação mais plausível para a crise gravíssima da economia brasileira parece ser que os agentes econômicos estão apreensivos e, em conseqüência, tomam a decisão mais racional do ponto de vista individual: reduzem, de forma drástica, seus gastos. Por um lado, os empresários "engavetam" projetos de investimento, reduzem custos e volume de produção; por outro, os trabalhadores, temendo o desemprego, reduzem seu consumo para formar poupança motivada pela precaução. "Nesse modelo, as "profecias" se auto-realizam", lamenta Sicsú. Em outras palavras, na expectativa de futuro adverso, diminuem-se os gastos no presente e o futuro, de fato, se torna ruim.


O documento defende que "a reação a partir da demanda governamental é o único instrumento de combate à crise que pode ser utilizado". Mas adverte que o aumento do gasto público não é suficiente: "o gasto público deve ser ampliado com o objetivo de mudar o quadro expectacional e, por conseguinte, estimular o gasto privado".

Segundo o Ipea, o governo tem condições orçamentárias para enfrentar a crise. A situação fiscal brasileira encontra-se muito bem equacionada. Em 2008, o déficit nominal do orçamento federal foi de apenas 1,53% do Produto Interno Bruto (PIB). A relação dívida líquida/PIB descreve uma trajetória muito favorável, tendo atingido, em janeiro, 36,6%.

Segundo o técnico do Ipea Roberto Messenberg, é possível enfrentar a crise mantendo ou ampliando os gastos do governo, sem desorganizar as finanças públicas. "Basta reduzir um ponto percentual na taxa Selic em cada uma das próximas reuniões ordinárias do Comitê de Política Monetária (Copom) e uma redução de 0,75 p.p. na reunião seguinte", diz. Essas reduções, do patamar atual de 12,75% para 7% ao ano, economizariam R$ 30 bilhões. "Se esta redução de 5,75 p.p. ocorresse já na próxima reunião do Copom, a economia fiscal em 2009 seria de R$ 43 bilhões", afirma.

Segundo a nota, a explicação mais plausível para a crise gravíssima da economia brasileira parece ser que os agentes econômicos estão apreensivos e, em conseqüência, tomam a decisão mais racional do ponto de vista individual: reduzem, de forma drástica, seus gastos. Por um lado, os empresários "engavetam" projetos de investimento, reduzem custos e volume de produção; por outro, os trabalhadores, temendo o desemprego, reduzem seu consumo para formar poupança motivada pela precaução. "Nesse modelo, as "profecias" se auto-realizam", lamenta Sicsú. Em outras palavras, na expectativa de futuro adverso, diminuem-se os gastos no presente e o futuro, de fato, se torna ruim.

Acesse o texto integral da Nota Técnica.

terça-feira, 3 de março de 2009

Saneamento: ainda falta muito

Segundo informações do SNIS do Ministério das Cidades, construídas a partir das informações dos prestadores de serviços, o índice médio de atendimento urbano foi de 93,1% para água, 48,3% para coleta de esgotos e 32,2% para tratamento de esgotos em 2006, com elevada heterogeneidade e desigualdade regional.

O governo precisa retomar o Banco Central, abaixar os juros e usar os recursos para promover fortes investimentos na área de saneamento. Gera empregos e melhora em muito a vida da população.

Petroquímicas religam fábrica para atingir mercado externo

Valor Econômico 02/03/2009
As fabricantes petroquímicas, que produzem as matérias-primas utilizadas pela indústria do plástico, começam a ver uma luz no fim do túnel.

Depois de desativarem fábricas no fim do ano passado, em razão da forte desaceleração econômica, as empresas voltaram a acionar suas unidades e a operar a produção com ocupação acima de 90% de suas capacidades industriais - praticamente o mesmo nível anterior à crise econômica.

"Voltamos a operar normalmente e a retomada pós-dezembro se deveu principalmente à exportação", disse o presidente da Quattor, Vítor Mallmann. Segundo o executivo da segunda maior petroquímica brasileira, a desvalorização do real frente ao dólar deu à companhia maior competitividade, permitindo elevar o volume de exportação. "Logramos êxito em alcançar mercados que antes não estávamos acessando", disse.

"Temos conseguido boas oportunidades de colocar nossa produção no exterior, principalmente na Ásia e América Latina", disse Manoel Carnaúba, vice-presidente de petroquímicos básicos da Braskem, maior empresa do setor no país. A petroquímica, que é controlada pelo grupo Odebrecht, tem vendido mais no mercado externo, que hoje já representa mais de 35% do seu volume de produção, ante um quarto antes da crise.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Mais desculpas para não baixar os juros

Banco Central queria que a crise no Brasil fosse maior

Enquanto o G20 pede para baixar os juros, o BC do Lula parece que não está nem aí para crise. Segundo a cobertura de uma reunião do BC com o "mercado", o BC não ficou muito contente com o fato da economia brasileira não ter entrando numa recessão forte.

Eles esperavam que a crise fosse forte o bastante para causar uma deflação nos preços. O governo tenta mostrar esforço para manter a demanda, mas mantém no comando do Banco Central pessoas que jogam no time adversário.

Enquanto o setor financeiro dominar a direção da política econômica, não dá para esperar que o Brasil avance muito. Bancões dos EUA e da Eurolândia estão quebrando por conta das lambanças financeira. Outros, mais sérios, estão também sendo puxados pela crise.

Enquanto isso, no Brasil, os bancos iniciam nova temporada de divulgação de gordos lucros (Itaú R$7,8 bi | BB R$ 8,8 bi | CEF R$ 3,88 bi | Santander R$ 2,8bi | Bradesco R$7,6 bi). Lucros obtidos esfolando clientes com tarifas e juros absurdamente altos e a sociedade como um todo através de ganhos com a dívida pública que o Sr. Meirelles insiste em manter na estratosfera.

Alex Ribeiro - Valor 02/03/09

O Banco Central está acompanhando atentamente a lenta queda da inflação, que dá sinais de ter se descolado da atividade econômica. A produção industrial sofreu uma forte contração em dezembro, de 14,5%, mas a inflação acumulada em 12 meses apresentou uma queda bastante suave, passando de 6,3% para 5,8% entre setembro e janeiro. Outras economias, como os Estados Unidos e o Japão, convivem com o risco de deflação.

A preocupação é compartilhada por outros membros da diretoria colegiada do BC, que se mostram insatisfeitos com o lento recuo das expectativas inflacionárias. A inflação prevista pelo mercado financeiro para 2009 passou de 5% para 4,66% de janeiro até o dado mais recente da pesquisa de mercado do BC, divulgado na semana passada. Essa redução não guarda proporção com a queda nas projeções para o crescimento da economia, que passaram de 3,6% para 1,5% durante o mesmo período.

Já no Brasil, avalia o BC, existe uma grande persistência inflacionária. Essa visão é compartilhada por parte dos analistas econômicos. "Convivemos com inflação alta por décadas, por isso a cultura inflacionária e a inércia são maiores por aqui", afirma Teles. Ele cita o exemplo das mensalidades escolares, preço livremente determinado pelo mercado. No início de 2008, os aumentos ficaram entre 4% e 5% e, nesse ano, subiram para a faixa entre 6% e 7%. "Em 2007, a inflação foi mais baixa, por isso as escolas aplicaram reajustes menores nas mensalidades em 2008", afirma Teles. "Em 2008, a inflação foi mais alta, e as escolas estão fazendo um repasse ainda maior para as mensalidades neste ano."