domingo, 12 de abril de 2009

China lança reforma para revitalizar rede pública de saúde

PAÍS NÃO TEM COBERTURA MÉDICA UNIVERSAL, E TODAS AS CONSULTAS SÃO PAGAS; CERCA DE 500 MILHÕES DE CHINESES NUNCA FORAM ATENDIDOS

RAUL JUSTE LORES
DE PEQUIM

Qualquer consulta em hospital público na China é cobrada, e a venda de remédios a preços altos é parte da receita dos centros médicos. Mas o governo prometeu na semana passada mudar a equação da saúde.
Nos próximos três anos, Pequim diz que vai investir 850 bilhões de yuans (cerca de R$ 290 bilhões) para tentar universalizar a saúde pública. O plano prevê a construção de 2.000 hospitais e a reforma de 5.000 clínicas e postos de saúde na zona rural. Promete atendimento gratuito e a distribuição de medicamentos a preços acessíveis pelo país.

Meio bilhão - de 1,3 bilhão- de chineses não sabe o que é uma consulta médica por não ter dinheiro. Depois do desemprego, gastos com saúde são a maior preocupação dos chineses.

Folha de São Paulo 12/04/2009

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Sadia tem vocação financeira, diz ex-diretor

Valor Econômico

08/04/2009 07:41



SÃO PAULO - Após mais de seis meses de silêncio desde que a Sadia anunciou ter problemas com derivativos, o ex-diretor financeiro Adriano Ferreira resolveu se pronunciar publicamente depois que os controladores da empresa decidiram processá-lo. Em nota enviada à imprensa, aponta a " vocação financeira " da Sadia e se diz surpreso com a acusação, pois alega ter cumprido " com rigor a prestação de contas " , reportando-se diretamente ao então presidente do conselho de administração Walter Fontana, com relatórios mensais.

" A meu ver, a decisão de me processar é uma clara tentativa de isentar os demais administradores, que geriram a companhia junto comigo e compartilharam as mesmas decisões e consequências positivas " , afirma Ferreira.

Procurada, a Sadia não quis comentar e informou que o assunto será discutido na Justiça.

Veja a seguir a íntegra da nota enviada por Adriano Ferreira:

" Diante das notícias publicadas nesta terça-feira, dia 7 de abril, sobre a decisão dos acionistas controladores da Sadia de autorizar o ingresso de ação de responsabilidade civil contra mim, adotada em assembleia geral extraordinária, tenho a esclarecer que:

" 1. Recebi a notícia com surpresa após ter dedicado seis anos de minha vida profissional à Sadia, de forma fiel e responsável, período em que a companhia triplicou de tamanho e o seu valor de mercado, inclusive já levando em consideração as perdas. Orgulho-me de ter participado desta história de sucesso.

" 2. Ingressei na Sadia em 2002, com a missão de coordenar a gestão da liquidez e de proteger o patrimônio da Sadia por meio de operações de hedge, função que cumpri com excelência, adaptando-me às atipicidades da cultura financeira da organização e otimizando-a de forma significativa ao aprimorar controles e processos, sendo responsável inclusive pela criação da área de gestão de riscos.

" 3. Ressalto que a Sadia, além da vocação agroindustrial, possui também uma vocação financeira com atividades equivalentes e até mesmo superiores, as quais são conduzidas na própria Sadia, na Concórdia Corretora de Valores, há 21 anos em operação, e, mais recentemente em 2007, na criação da holding financeira e do banco múltiplo, com rentabilidades de extrema relevância nos lucros da organização.

" 4. Os instrumentos financeiros de derivativos sempre fizeram parte e tiveram papel essencial nas práticas comerciais e financeiras da Sadia e nos últimos seis anos, foram responsáveis por aproximadamente 60% do lucro da companhia.

" 5. A decisão comum a dezenas de outras companhias brasileiras de trabalhar com o " produto 2 por 1 " , como foram apelidados, deu-se pelo fato deste ser, à época, mais vantajoso, ou seja a empresa sempre esteve familiarizada com operações de derivativos..

" 6. Os mesmos derivativos 2x1 renderam à companhia no primeiro semestre de 2008 o correspondente a 80% dos resultados, ou seja, dos lucros da Sadia. Ressalte-se ainda que estas mesmas operações foram realizadas também em 2007, ano em que a Sadia apurou um resultado excepcional e que todas estas operações constavam do seus demonstrativos financeiros.

" 7. O fator que levou a Sadia a ter perdas financeiras na ordem de 2.5 bilhões de reais, conforme divulgado em seu último balanço, deve-se principalmente à crise econômica mundial sem precedentes, que aconteceu de forma abrupta e avassaladora, e à cultura da empresa nessas operações financeiras, a qual já era característica quando da minha entrada na companhia.

" 8. Após solicitação por escrito, me foi negado verbalmente o acesso ao relatório de auditoria especial preparado pela BDO Trevisan, o qual aparentemente embasou a decisão tomada na assembleia geral.

" 9. Dessa forma, surpreende-me também o relatório da BDO Trevisan, conforme o que li publicado na grande imprensa, considerar apenas o ano de 2008, ou seja, a história muito recente da companhia. .

" 10. Além disso, é possível perceber, por meio das notícias, que provavelmente foram cometidos erros conceituais no relatório da BTO Trevisan, já que me apontam como culpado pelas perdas da Sadia. Durante toda minha permanência na empresa eu trabalhei enquadrado nos parâmetros de riscos aceitos por ela. É importante lembrar que para eventuais cálculos do relatório serem legítimos deve ser levado em consideração o cenário macroeconômico e os melhores prognósticos disponíveis na data em que as operações foram fechadas e não seu valor final.

" 11. Sobre as perdas, informo ainda que no momento de minha saída o montante era bem inferior ao divulgado.. Desconheço as medidas e decisões tomadas, bem como seus impactos financeiros, subsequente à minha demissão da Sadia.

" 12. Quanto à minha atuação na companhia, cumpri com rigor a prestação de contas com a Sadia, me reportando diretamente ao presidente do Conselho de Administração, apresentando relatórios mensais e praticando todos os atos que me eram atribuídos.

" 13. Todas as operações financeiras coordenadas por mim sempre foram registradas, contabilizadas e auditadas por mais de uma vez, conforme era de praxe na Sadia.

" 14. Diante da crise financeira mundial e da tomada de conhecimento das possíveis perdas que a Sadia poderia sofrer, tomei as providências corretas e cabíveis, avisando imediatamente o Conselho e trabalhando rápida e eficazmente para zerar as operações em questão.

" 15. Quanto à política de governança corporativa da Sadia, a qual sempre respeitei, parece-me que realmente há problemas de controle interno, já que, meses após minha saída, a companhia decidiu modificar as estruturas de reporte.

" 16. A meu ver, a decisão de me processar é uma clara tentativa de isentar os demais Administradores da Sadia, que geriram a companhia junto comigo e que compartilharam as mesmas decisões e as consequências positivas delas.

" 17. Apesar de abatido, estou tranquilo e confiante de que a justiça será feita e eu serei inocentado das acusações a mim proferidas.

" São Paulo, 7 de abril de 2008.

Adriano Ferreira "


Brasil resiste à onda negativa. Isso é bom?

Luiz Sérgio Guimarães
Valor Econômico 08/04/2009

Em dias de otimismo em Nova York, os mercados brasileiros costumam operar mais animados do que a onda externa autorizaria. A recíproca não é verdadeira. Muitas vezes, os pregões domésticos não aceitam integralmente a orientação vinda de fora se ela é exageradamente negativa. Foi o que aconteceu ontem. A Bovespa resistiu à maior parte da influência deletéria procedente do Dow Jones e, enquanto este tombou 2,34%, o índice paulista recuou 0,78%. O dólar fechou no viés de baixa que indica distensão. Cotado a R$ 2,2170, desvalorizou-se 0,04%. E o juro persistiu em queda no mercado futuro. A taxa do swap de 360 dias cedeu de 9,88% para 9,84%. Essa alienação parcial dos mercados locais é boa ou ruim? Ela pode estar baseada em uma expectativa completamente falsa.

Há um cenário considerado pelas instituições tão verdadeiro, por si mesmo incontestável, que dispensa a apresentação de provas. Trata-se do vaticínio de que o Brasil será o emergente menos afetado pela crise e o primeiro a sair dela. Isso está sendo repetido com a mesma insistência que a qual foi reiterada, no meio do ano passado, a tese do "decoupling", o desacoplamento dos emergentes da crise irradiada pelos EUA. O deslocamento, logo se viu, não resistiu às primeiras informações sobre a atividade no quatro trimestre de 2008. O Brasil entrou tecnicamente em recessão com a inevitável queda do PIB no primeiro trimestre de 2009. Com abril, se inicia o segundo trimestre. Já voltamos a crescer?

A suposição de que o Brasil é melhor que os outros e sairá primeiro e quase incólume do atoleiro dispensa o Banco Central de medidas anticrise mais enérgicas. Trata-se da reiteração do erro básico, o de sempre propugnar por uma política monetária mais conservadora do que o necessário; a reprise do erro que, só para ficar em exemplos recentes, levou o Copom a manter a Selic em elevadíssimos 11,25% entre setembro de 2007 e março de 2008; a desfechar um ciclo de aperto para supostamente debelar um choque de oferta e puxar a Selic para até 13,75% quando já estava em curso nos EUA uma megacrise de crédito; e a retardar o ciclo de baixa em dezembro quando já estava evidente a devastação ocorrida na economia mundial. E agora viceja a tese do milagre da recuperação brasileira antes dos demais países. Tal tese, incompatível com os dados recentes sobre atividade e inflação, só interessa a quem quer evitar os prejuízos que viriam com o aprofundamento do corte da Selic.



Pelos dados divulgados ontem pela CNI, o Nível de Utilização da Capacidade Instalada (NUCI) da indústria - um dos mais observados pelo Copom - bateu em 77,8% em fevereiro, estável na comparação com janeiro. O que significa a estabilidade? Significa manutenção de elevada ociosidade na indústria, o que explica as deflação do IPA e do IGP-DI. Este caiu 0,84% em março, após baixa de 0,13% em fevereiro. Se o Copom quiser reiterar a sua ortodoxia monetária no dia 29 terá de cortar a Selic em mais 1,5 ponto, para 9,75%. Se o Copom quisesse fazer cumprir as profecias sobre o novo milagre brasileiro teria de dar um choque nas expectativas por meio tanto de um corte da taxa básica direto para 9% quanto de uma redução mais acentuada dos compulsórios e introdução de novos estímulos administrativos ao crédito. As medidas contracíclicas fiscais já se esgotaram, só restam as políticas de juro e de crédito.

O Brasil não pode mesmo ficar dependente do humor externo, mas por razões objetivas, não por meras expectativas. Nesta segunda semana de abril, o mercado externo inverteu completamente a direção de franca euforia exibida na primeira. Tudo indica que os especuladores usaram fatos como a reunião do G-20 para puxar preços de ativos de forma a vendê-los depois em condições mais favoráveis. É o que está acontecendo agora, no início da safra de balanços trimestrais de corporações americanas. Antes da Alcoa divulgar, depois de encerrado o pregão da Nyse, um prejuízo de US$ 497 milhões, a bolsa foi abalada pelas informações de que a GM prepara aceleradamente a sua concordata. O papel da montadora fechou com perda de 11,89%. O mercado já amanheceu azedo, sob influência da notícia de que o FMI estaria dobrando a magnitude do lixo tóxico para US$ 4 trilhões e da revisão do PIB da zona do euro para uma contração de 1,5% no quatro trimestre de 2008. Pela informação anterior, a retração era menor, de 1,3%.

terça-feira, 7 de abril de 2009

BC é maior entrave à ampliação do CCR

Valor Econômico  06/04/2009

O Banco Central tornou-se a principal resistência, no governo, às intenções dos ministérios de aumentar o alcance das operações de comércio exterior abrigadas pelo Convênio de Crédito Recíproco (CCR), mecanismo de compensação de moedas existentes entre os países da Associação Latino Americana de Integração (Aladi). O CCR reduz a necessidade de moeda forte, como o dólar, nas transações locais, dá garantias aos comerciantes, e é visto, entre técnicos do governo e exportadores como a melhor ferramenta para enfrentar a crescente concorrência da China, nos mercados da América do Sul.

"Com o CCR, o Brasil, indiretamente, pode brecar o avanço chinês", concorda o vice-presidente da Associação dos Exportadores do Brasil (AEB), José Augusto de Castro. Ele comenta que a falta de crédito e a deterioração nas contas dos vizinhos latino-americanos deve estimular ofertas financeiras como o recente acordo em que a China ofereceu empréstimos equivalentes a US$ 10 bilhões, em yuan, à Argentina, para compra de produtos chineses. O CCR permite reduzir custos associados às garantias bancárias, e proteger exportadores contra riscos soberanos.

As importações e exportações negociadas pelo CCR são registradas na Aladi e, a cada quadrimestre, os países fazem as compensações, em dólar: quem importou mais que exportou deposita os dólares devidos, e os que exportaram mais que importaram recebem. Por esse mecanismo, reduzem-se em até 60% as necessidades de moeda estrangeira para os países no comércio com outros sócios da Aladi: na história do CCR, firmado em 1982, foram realizadas transações que somam US$ 250,6 bilhões, que exigiram a transferência, entre os países, de pouco mais de US$ 100 bilhões.

O Brasil é o segundo maior usuário do CCR nas exportações: no último quadrimestre até janeiro. Caso não tivesse recebido antecipadamente a maior parte das operações nesse regime, o BC brasileiro teria a receber mais de US$ 1 bilhão em janeiro, só atrás da Colômbia que fez exportações de US$ 2,1 bilhões sob o CCR, e depois de descontadas as importações e pagamentos antecipados, recebeu US$ 126 milhões. Grande parte desse resultado se deve à Venezuela, que, em consequência da política de centralização cambial, não tem rivais no uso do CCR para sustentar suas importações.

A Venezuela representou, no ano passado, cerca de 94% de todas as importações realizadas sob o regime do CCR. No terceiro quadrimestre de 2008, segundo dados da Aladi, os venezuelanos canalizaram US$ 4,74 bilhões em importações pelo CCR. O segundo maior importador sob o regime é o Brasil, com apenas US$ 76 milhões em importações pelo CCR.

"Esse mecanismo tende a ganhar cada vez mais importância nas transações do continente", comenta o representante do Brasil na Aladi, embaixador Régis Arslanian. Segundo exportadores, que discutiram o assunto recentemente em reunião promovida pela Confederação Nacional da Indústria, alguns empresários já informam que pretendem restringir suas operações com parceiros na América Latina aos negócios abrigados pelo CCR, porque, além de reduzir as necessidades de moeda estrangeira dos sócios, o convênio inclui um mecanismo de seguro, pelo qual os Bancos Centrais de cada país se comprometem a pagar ao exportador, em caso de inadimplência do país importador, ou do banco realizador da operação.

Os técnicos nos ministérios querem criar novos mecanismos de redução do risco de crédito para os Bancos Centrais, para que seja possível ampliar o alcance do CCR, hoje limitado para operações de maior prazo, no Brasil - com restrições semelhantes em outros países da região. Em todo o ano passado, as operações abrigadas pelo CCR não chegaram a US$ 13 bilhões. Propostas para esses novos mecanismos, como a criação de um fundo regional de seguro de crédito para as operações do CCR, devem ser discutidos em um seminário que a Aladi promoverá, nesta semana, em Montevidéu.

Entre as ideias em debate, estão a "harmonização" das regras internas de garantias para o CCR, em todos os países, redução do prazo de compensação, hoje quadrimestral, para dar mais segurança aos países, e o estabelecimento de um sistema de resseguro, para encorajar Bancos Centrais a assumirem maiores riscos.

Notícias do Trem bala Rio-São Paulo-Campinas

Valor Econômico 06/04/2009

O contrato pode dar grande impulso à indústria da construção civil e ao setor de transportes no país

Pelo menos seis grupos estrangeiros já se preparam para participar daquela que pode ser a maior concorrência federal da década, a do trem-bala que vai ligar São Paulo ao Rio de Janeiro. O contrato, cujo valor é estimado em US$ 11 bilhões, pode dar grande impulso à indústria da construção civil e ao setor de transportes no país. Na quinta-feira, com três meses de atraso, chegou ao Ministério dos Transportes a primeira parte do estudo técnico preparado pela consultoria inglesa Halcrow, com informações detalhadas sobre traçado, o modelo de negócios e, sobretudo, a projeção de demanda para o trajeto - que determinará a viabilidade econômica do investimento. O material deverá ser colocado em consulta pública ainda neste mês. 

Os grupos que se preparam para disputar a concorrência são liderados pela francesa Alstom, a alemã Siemens, o conglomerado japonês Mistui (associado a vários fornecedores locais), as estatais responsáveis pelo trem-bala coreano, a China Railway Materials (CRM) e a italiana Ansaldo Breda. Fontes do setor acreditam que pelo menos quatro desses grupos devem chegar à concorrência com reais chances de ficar com o contrato.

Nas últimas semanas, os grupos estrangeiros envolvidos na disputa reuniram-se com potenciais investidores, fornecedores e sócios do projeto. As conversas envolvem bancos privados, fundos de investimento, fontes oficiais de crédito e empreiteiras nacionais e estrangeiras. Estima-se que, dos US$ 11 bilhões previstos para o projeto, 75% serão destinados à construção civil da obra e só 25% aos equipamentos de transporte. Por isso, os grupos estrangeiros estão a procura de sócios entre grandes construtoras.

As informações preliminares do relatório preparado pela Halcrow dão conta de que o negócio será formatado como uma espécie de Parceria Público-Privada (PPP), com subsídio público, mas não necessariamente na forma de transferências regulares ao consórcio vencedor. O que deve haver é uma participação do Estado na engenharia financeira do projeto. Uma hipótese é a participação do BNDESPar e de fundos de pensão de estatais como sócios estratégicos na operação, para viabilizar o investimento, à semelhança do que foi proposto nos leilões das usinas do rio Madeira. 

quinta-feira, 2 de abril de 2009

O Brasil e o Mercosul

Depois de 18 anos de vida, o acordo que deveria integrar Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai permanece permeado de contradições. Vários produtos continuam sob regime especial. A lista de exceções à tarifa externa comum sofre revisões ditadas por choques passageiros. Cobra-se a tarifa de importação sobre produto importado de país fora do bloco cada vez que o produto é reexportado dentro do bloco.

Sem objetivos comuns, dificilmente o acordo pode chegar a bom destino. O Brasil vê o Mercosul como uma plataforma estratégica para aumentar sua estatura internacional. A Argentina o vê como a solução mais fácil para crises de curto prazo.

Grandes diferenças separam o Brasil de seus sócios, pois ele representa entre 70% e 80% do território, população, PIB e comércio dos quatro países. Desde 2003, nossas exportações para os outros membros do Mercosul vêm crescendo com maior rapidez do que as deles para nós. O resultado são superávits que, somados à desvalorização do real em relação ao dólar, tendem a agravar os ressentimentos dos parceiros, que reclamam das assimetrias entre o Brasil e o resto do grupo.

Entre 2003 e 2007, as exportações do Brasil para a Argentina cresceram 35% (contra 23% da Argentina para o Brasil); 23% do Brasil para o Paraguai (contra 7% do Paraguai para o Brasil); 33% do Brasil para o Uruguai (contra 11% do Uruguai para o Brasil). Para o Paraguai e o Uruguai, os déficits com o Brasil seriam a prova de que o Mercosul lhes traz poucos benefícios. A Argentina teme que a crescente penetração de produtos industriais brasileiros ameace o desenvolvimento de seu setor manufatureiro.

A evidência empírica parece indicar que as assimetrias das quais nossos parceiros se queixam são tão reais quanto as medidas protecionistas adotadas pela Argentina. No trabalho "Regionalism as Industrial Policy in Developing Countries", Pedro Moncarz, Marcelo Olarreaga e Marcel Vaillant (das universidades de Córdoba, Genebra e Montevidéu) apontam evidência consistente com a hipótese de que o Brasil atingiu objetivos industriais à custa dos parceiros do Mercosul.

Todos partidos para o castelo de areia


Maria Inês Nassif
Valor Econômico 02/04/2009
 

Então, ficamos combinados: quando uma operação policial pegar um partido com a boca na botija, fazendo caixa dois com dinheiro de empreiteira, o responsável pela investigação deve acessar o site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e copiar e colar (ctrl C, ctrl V) o nome de todos os partidos registrados oficialmente. Segundo os líderes dos partidos de oposição que foram citados na Operação Castelo de Areia - uma investigação originalmente motivada por denúncias de que a empreiteira Camargo Corrêa teria cometido supostos crimes financeiros, de lavagem de dinheiro e de evasão fiscal - é pouco elegante denunciar como implicados na Operação apenas aqueles contra os quais foram levantadas provas. Não acusar o PT, o PV e o PTB é prova do partidarismo da Polícia Federal, que teria sido governista, segundo seus detratores, mesmo apontando igualmente, como beneficiários de supostas doações ilegais que teriam sido feitas pela construtora, os partidos governistas PP, PSB, PDT e PMDB.

A regra não conta, todavia, quando o PT e seus aliados são o centro da investigação. No escândalo do "mensalão", o caso levado de forma mais discreta foi o do caixa dois da campanha do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), que usou em 1998 o mesmo esquema que o PT e seus aliados, para arrecadar dinheiro de campanha. Não seria de bom tom, afinal, dar grande publicidade ao caso do tucano mineiro.

O grosso dos que esperam julgamento no STF, por conta de suposto envolvimento no "mensalão", é governista. Nesse caso, pode-se dizer que a PF é oposicionista? Deixou de ser quando mencionou o PSDB, o DEM e o PPS em outra investigação? Se a Operação Castelo de Areia for julgada no futuro pelo STF, e este considerar que o suposto caixa dois da Camargo Corrêa não fez réus, e o suposto caixa dois do "mensalão" sim, a Corte será governista ou oposicionista? No caso do "mensalão", o trabalho conjunto do Ministério Público Federal constituiu o que o presidente do STF e do Conselho Nacional de Justiça, Gilmar Mendes, chamou de "algo lítero-poético-recreativo"? Ou esteve adstrito às funções constitucionais das instituições envolvidas? O que diferenciou, então, o caso do "mensalão" da Operação Castelo de Areia?

E daí, ficamos também assim: o controle exercido pelo Ministério Público sobre a Polícia Federal é "algo lítero-poético-recreativo", e portanto o MP e a PF estão fora de controle, pelo menos no caso da Operação Castelo de Areia e na Operação Satiagraha, as que são objeto das indignações do presidente do STF. Diz Mendes: "Muitas vezes o Ministério Público Federal é parte naquilo que chamamos de ação abusiva da polícia (...). Quando o Ministério Público atua em conjunto com a polícia, quem vai ser o controlador dessa operação?" Ele defende uma "vara especializada no controle das atividades policiais", que poderia ser instituída "facilmente" pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), do qual o presidente do STF é também presidente - ou seja, supõe-se que uma simples canetada de Mendes tem o poder de eliminar o controle constitucional que o MPF tem sobre a polícia. Isso quer dizer que a Constituição se submete ao CNJ? E, se assim for feito, Mendes, como o "presidente do Judiciário", passaria exercer o controle sobre a polícia e, com a sua serenidade e neutralidade, evitaria o "aparelhamento do aparato policial, um aparelhamento político" da PF, e a excessiva complacência do MPF?

A Operação Castelo de Areia foi movida pelo Ministério Público, investigada pela Polícia Federal e monitorada pela 6ª Vara da Justiça, da qual é titular o juiz Fausto De Sanctis, que o CNJ do ministro Mendes processa pelas sentenças discordantes tomadas por ele contra as suas próprias. Uma ação da PF que foi acionada pelo MP e teve o controle de uma autoridade judicial não é um complô partidário - é assim que legitimamente se processam as investigações. Isso está longe de ser um clube "lítero-político-recreativo". Na verdade, dá para apostar que os procuradores, policiais e juízes envolvidos num trabalho dessa envergadura tenham pouco tempo para frequentar clubes lítero-político-recreativos. Apenas nenhum promotor, policial ou juiz pediu licença ao STF para concluir quais eram os crimes passíveis de indiciamento e quem os cometeu, nem submeteram suas conclusões ao STF, porque não é esse o papel da alta Corte nesse momento. Vai ser no futuro, se algum indiciado recorrer de sentenças ou procedimentos que considerem injustos ou ilícitos. Como, normalmente, pessoas com poder econômico costumam recorrer até a última instância judicial, o STF em algum momento vai se posicionar sobre o caso. E como parlamentares podem estar implicados, o caso deve parar direto no Supremo. Outra razão para Mendes não emitir juízos sobre o trabalho do MP, da PF e do juiz de primeira instância: afinal, vai julgá-lo mais para a frente.

A PF virou alvo do presidente do STF desde a deflagração da Operação Satiagraha que, entre outras coisas, botou duas vezes na cadeia o empresário Daniel Dantas. Mas ainda assim, não percebe o risco que está correndo. As decisões que toma, mesmo técnicas, não estão apenas sendo combatidas por divergências quanto a métodos. O trabalho de descrédito da PF, do juiz De Sanctis e de mais alguns que têm levado adiante investigações por crimes de colarinho branco é para acuar toda a instituição policial. Se os grupos internos dão munição para essa ofensiva externa contra os seus adversários de corporação, por conta de uma disputa de poder, não perceberam que a PF é atingida sem poupar ninguém - e que esse movimento de opinião pública incitado por algumas figuras públicas torna cada vez mais arriscado, para qualquer grupo dela, a investigação de casos politicamente complicados, que envolvam interesses econômicos mais poderosos.

Outro risco que se corre é a instituição STF ficar identificada como aquela que pode estar permeável a interesses. Num país altamente injusto, a mais alta Corte perder sua imagem de mediadora - e justa - e fixar-se como aquela que zela exclusivamente por grandes interesses, é o fim de esperanças de uma parcela da população altamente desassistida. É melancólico.